A domesticação das mulheres açorianas

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Desde o primeiro grito à nascença, as mulheres sofrem ao longo da sua vida um processo de domesticação que visa o seu enquadramento em expetativas e normas sociais de dependência, subordinação e discriminação.
Tudo começa com tons de voz diferentes, com cores diferentes, e até com brincadeiras diferentes na primeira infância. Também começa com afirmações de louvor diferentes: os meninos querem-se fortes, corajosos e ativos. As meninas querem-se meigas e amorosas. São nas atividades lúdicas que as crianças começam a socializar-se em atividades definidas por género e a praticar os papéis sociais que mais tarde lhes serão atribuídos. É na casa de bonecas, onde tudo é cor-de-rosa, que as meninas primeiro começam a praticar uma ética de cuidados, enquanto os meninos brincam com os tratores em cores primárias. Os meninos aprendem rapidamente que princípios de justeza e equidade são o que lhes é devido, princípios praticados nos jogos de competição e nas demais interações com outros rapazes. As meninas já sabem que esses princípios não se aplicam a elas e os adultos que não gostam de raparigas desvairadas. Até o termo depreciativo “Maria-rapaz” significa romper com as expetativas de género.
Na escola a domesticação feminina continua. Os rapazes ocupam mais espaço verbal do que as raparigas, exigem mais atenção dos professores, enquanto que uma rapariga malcriada é em geral tratada de um modo mais severo, porque afinal “boys will be boys” (os rapazes são assim). Entretanto, a domesticação também inclui a sexualização precoce das raparigas, o que as transforma em bonecas objetivadas. Desde os anúncios da televisão, programas para pré-adolescentes, Facebook, Snapchat, Instagram até às próprias lojas de roupa, todos apresentam uma imagem duma rapariga de 10 anos transformada numa mulher em miniatura, numa paródia macabra de carne infantil exposta, pintada e apetecível.
Os Açores têm a maior percentagem de casos de gravidez na adolescência no país. O namoro, acompanhado de ciúmes, controlo, e até violência, é um espelho da vida das suas mães e, por isso, é bem natural para tantas raparigas pensarem que a vida é assim mesmo. Então, grávidas antes de serem adultas, tornam-se em esposas, mães, donas de casa, criadas para todo o serviço. Frequentemente têm de trabalhar fora de casa, em cima das suas tarefas domésticas. Sem escolaridade, funcionalmente analfabetas, estão condenadas para o resto da vida a uma servitude que as envelhecerá precocemente.
Aquelas raparigas que escapam esta situação, porque são de classe média e com algum dinheiro (e por isso mais escolhas), continuam a estudar, acabam os seus cursos e enveredam numa carreira. Têm alguma independência, têm o seu salário, praticam a contraceção, e divertem-se durante as noites brancas até que se apaixonam e casam.
Pobres ou com dinheiro, o dia do casamento é uma meta atingida, sonhada desde a infância. Vestidas de branco, as mulheres, sem disso terem consciência, embarcam noutra etapa da sua domesticação. De repente são esposas e donas de casa com um novo estatuto social. Têm brio em se mostrarem capazes, cheias de brindes domésticos. Ao princípio é romântico e especial. Sem repararem, as rotinas domésticas multiplicam-se e até começam a vir a casa fazer o almoço para o marido. Com certeza que ele ajuda: leva o lixo lá fora e aspira muito bem. Mas de um modo estranho, ele nunca repara na multiplicidade de tarefas necessárias para manter a casa um lar, as quais na maior parte das vezes são invisíveis para o marido: a roupa que deixou no quarto de banho que ela apanha, a louça que ficou na pia e ela lava, a roupa que aparece dobrada dentro das gavetas, e muitas, muitas mais.
Com o nascimento das crianças a domesticação feminina aprofunda-se, porque cabe à mulher a maior parte dos cuidados de infância. Desde as tarefas básicas até às consultas médicas, são as mulheres que desempenham a maior parte do trabalho de criação. E devagar, devagarinho, aquela que tinha aquele brilho especial por quem o marido se apaixonou transforma-se em esposa e mãe, com um ar pesado numa exaustão permanente, cuja vida se transformou num rodopio bem manejado de minúcias dedicadas ao bem-estar da família. Não é só o trabalho físico, mas também o esforço mental de coordenar simultaneamente uma grande variedade de gestos e de coisas que é preciso fazer.
Para muitas mulheres de classe média, o futuro profissional que tinham planeado quando jovens, com metas ambiciosas, é agora um marcar passo porque os seus colegas homens estão bem à frente na progressão da sua carreira. Eles não tiraram meses ou anos para se dedicarem à família. Eles podem ter horas extraordinárias porque em casa está a esposa a guardar o forte. Eles até têm a oportunidade de jantarem com colegas e passarem o serão a discutir com outros homens matérias de negócios ou de política ou simplesmente “networking”.
Anos depois, entre tratar dos netos e de seus pais idosos, a mulher bem domesticada acorda cedo para pôr a roupa a secar e vai para o trabalho sonhando com a reforma quando pode dedicar ainda mais tempo à família. Exausta, no fim do dia, senta-se a ver a telenovela ou a passar os olhos por revistas femininas onde lhe mostram como esconder as rugas e como se tornar mais apetecível para o marido. Este, entretanto, está a passar o serão com a amante, bem mais nova do que a mulher e com um brilho nos olhos que lhe faz lembrar outra rapariga.
A domesticação das mulheres é geracional e sem tréguas. Em Portugal, o trabalho feminino não remunerado de cuidados à família e tarefas domésticas é, em média, mais do que o dobro dos homens: as mulheres dedicam 30 horas semanais nessas tarefas para 13 horas semanais dos homens (geralmente em atividades consideradas adequadas à sua masculinidade). Há consequências significativas para a saúde mental das mulheres. A diferença entre mulheres e homens com sintomas de depressão é maior em Portugal do que noutros países europeus, com 30% das mulheres com sintomas depressivos, e as mulheres consomem 75% dos medicamentos antidepressivos vendidos no país. Em meu entender, a domesticação das mulheres é uma forma subtil de violência de género tão disseminada e normalizada que nem nos damos conta dela.
Não há soluções simples para combater a domesticação das mulheres. Uma abordagem sistémica inclui necessariamente romper com estereótipos de género através de campanhas de educação pública e nas escolas. Inclui também tornar obrigatório o usufruto de licença de paternidade quando as crianças são bebés e reforçar a rede de creches e jardins de infância. Precisamos também de legislação que force a divulgação de publicidade comercial neutra de género e é urgente desafiar partilhas nas redes sociais que reforçam a objetificação e sexualização de meninas. A abordagem tem de ser política, mas também educativa, cultural e centrada nas comunidades, para que as mulheres nas nossas famílias sejam consideradas pessoas autónomas e parceiras em projetos de vida comuns.
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About Author

Avelina da Silveira começou a sua vida criativa pela escrita e publicação de poesia. Depois de se reformar como professora, continua a trabalhar como artista plástica, dedicando-se a técnica mista e a retratos. Avelina da Silveira (Ferreira) completou o Mestrado de Sociologia da Educação em Estudos de Género na Universidade de Toronto (OISE) e continua a empenhar-se no ativismo feminista e de justiça social.

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