A performatividade de género: teoria que desafia “a ordem natural das coisas”

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Ultimamente, as redes sociais têm revelado o modo frenético e até violento como a filósofa Judith Butler foi recebida no Brasil aonde se deslocou para participar numa conferência. As forças conservadoras associadas ao fundamentalismo religioso cristão entraram em convulsões perante a ideia que o género não é algo estável, atribuído à nascença e correspondentemente ao sexo biológico. Acima de tudo, perturbam-se com o desafio ao que consideram “a ordem natural das coisas”, prescrita por Deus no princípio. Esta ordem natural parte do princípio que as mulheres são definidas pela sua função reprodutiva. Daí que, para além de darem à luz, às mulheres cabe a responsabilidade de criarem filhos e filhas, terem o bem-estar da família como prioridade acima das suas próprias ambições e anseios. Por extensão desta premissa, cabe também às mulheres a manutenção do lar, serem atentas às necessidades dos homens (os quais libertos das responsabilidades domésticas, chegam a casa cansados do seu trabalho remunerado). As mulheres também devem cuidar dos membros da família quando estão doentes ou idosos. Na visão do mundo dos fundamentalistas cristãos e conservadores brasileiros o papel da mulher é dentro de casa e o trabalho remunerado é uma ameaça à estabilidade do lar e da família tradicional.
Afinal qual é a tese fundamental que Judith Butler defende na sua obra Problemas de género: feminismo e subversão da identidade, publicado originalmente em 1990? Em termos muito simples, ela estipula que não só os papéis sociais atribuídos aos homens e às mulheres não são estáticos e nunca o foram, como a definição de género em si própria é uma realidade construída pela repetição de atos, gestos e atitudes que reforçam constantemente as expetativas sociais. Trata-se, portanto, de uma questão de “performatividade”: da repetição constante de atividades performativas que produzem significados, não só em termos de identidade pessoal, como na reprodução de definições de género: O que significa ser mulher? O que significa ser homem?
O sexo biológico de uma criança é normalmente identificado à nascença: ou é macho ou é fêmea, com exceção de cerca de 1.7% da população que é inter-sexo. Dependendo da cultura, as crianças adquirem uma identidade de género (feminino, masculino ou queer) em função dos seus comportamentos e atitudes que desenvolvem em interação com as expetativas daqueles que as rodeiam. Uma fêmea torna-se feminina e adquire essa identidade de género, porque está imersa num contexto cultural que modela e molda essa identidade. Um macho torna-se masculino pelas mesmas razões.
O trabalho de Judith Butler analisa transsexuais e travestis como exemplo de grupos que são uma subversão da ordem de género estabelecida, pela sua falta de coerência com a atribuição de género conforme o seu sexo biológico. As pessoas transsexuais e os travestis subvertem e desafiam a ordem compulsória entre sexo e o género. Judith Butler demonstrou através do conceito de “performatividade” que o género não é algo que nós somos, mas sim algo que fazemos constantemente, construindo a nossa identidade de género nos meandros quotidianos dos nossos gestos, palavras e atitudes. Para ela o corpo não existe fora dos discursos que lhe dão forma, num sistema de significados interativos.
A definição do que significa ser homem na nossa sociedade dá primazia à heterossexualidade, agressividade, competição: é o “macho alfa”. Este modo de “ser homem” é uma definição hegemónica a qual oprime todos os homens que não se conformam com essas expetativas. Definições alternativas e subordinadas de masculinidade são alvo de desprezo e bullying. Neste contexto, os homens sentem a necessidade de constantemente defenderem a sua masculinidade. As mulheres, face à masculinidade hegemónica, estão subordinadas na posição de precisarem de serem defendidas, ou de se defenderem a si próprias, e nunca uma mulher está mais vulnerável do que quando está grávida, com crianças pequenas, ou quando tenta fugir de um homem. A subordinação feminina também se revela na sua objetificação sexual: objetos de desejo no olhar masculino que leva ao assédio sexual. A razão mais simples porque tantos homens assediam mulheres é porque podem, nem mais nem menos. Eles julgam que têm direito a isso. Seguem simplesmente o modelo de masculinidade hegemónica de primazia de poder.
De acordo com Butler, e seguindo na tradição de Michel Foucault, a construção cultural do “ser homem” ou “ser mulher” é um pilar fundamental na manutenção do sistema capitalista e patriarcal, assentando na reprodução de um sistema de divisão sexual do trabalho e no disciplinamento dos corpos. Com certeza que no debate académico e político nem todos concordam com esta visão pós-estruturalista. Contudo, o trabalho de Judith Butler tem sido um dos maiores contributos para o pensamento dos nossos tempos e tem inspirado mulheres, homens e queers na construção de uma sociedade mais inclusiva e com maior justiça social.
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About Author

Avelina da Silveira começou a sua vida criativa pela escrita e publicação de poesia. Depois de se reformar como professora, continua a trabalhar como artista plástica, dedicando-se a técnica mista e a retratos. Avelina da Silveira (Ferreira) completou o Mestrado de Sociologia da Educação em Estudos de Género na Universidade de Toronto (OISE) e continua a empenhar-se no ativismo feminista e de justiça social.

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