«O futuro é hoje»

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A morte do Zé Pedro inundou as redes sociais com as mais variadas notícias e publicações. Face ao choque inicial, optei por evitar ler, ouvir ou enunciar algo acerca do sucedido. Sou assim. Não lido bem com doenças, nem com mortes. Necessito de um tempo para assimilar.
Pensar no Zé Pedro é pensar nos Xutos e Pontapés, que me faz recuar aos anos 80, ainda nas Flores, nos quais me levantava às 06.30 da manhã, fazia um percurso de 20 quilómetros, num autocarro, que nos brindava com forte cheiro a combustível a caminho das salas de aulas. Eram os anos dos Walkman. Portanto, naquelas madrugadas, de auscultadores nos ouvidos, “Os contentores” era o som que ouvia e cantarolava. Eram os Xutos e Pontapés e lembro-me bem de ter pago mil escudos pela reprodução numa cassete – as famosas Basf.
Grande parte do meu fim-de-semana foi dedicado a ler todas as notícias referentes à sua morte, à sua última entrevista, às suas últimas fotos, ao seu funeral. Consumi vorazmente todos os registos acerca do Zé Pedro e foi quando me dei conta que desde 2011 evitava toda e qualquer notícia relativa ao seu estado de saúde. No fundo, evitava confrontar-me com aquilo que todos/as nós assistimos no dia 30.
É inegável o seu compromisso cívico. Demonstrava-o nas letras que escrevia, nas lutas que se envolvia e que eram determinantes contra a guerra, pela descriminalização do aborto, em defesa dos direitos socais, pelo bem-estar animal. Era irreverente, frontal e insubmisso!
Numa sociedade cada vez mais alienada, cada vez mais egoísta, fica o exemplo de como se atinge a fama e da forma que a mesma pode ser usada em prol de outros/as. Foi o que Zé Pedro fez: impulsionou, apoiou e lançou outros/as artistas.
Hoje revirei a caixa das recordações, onde guardo as melhores vivências. O lenço, o cachecol e o pin estão lá… ali estão memórias de concertos pelas ilhas e por terras a dentro no Continente. Estão noites, amizades, canções, fogueiras.
O Zé Pedro era daquelas pessoas que julgamos nunca envelhecer, nem falecer. Estou certa de que as próximas gerações terão conhecimento dos Xutos e do Zé, que a tecnologia o manterá “vivo”. No entanto, não me digam que estará sempre presente. É mentira!! Na verdade, nunca mais o veremos em palco com aquele sorriso humilde e atrevido que deslumbrava.
Conheceu o amor aos 56 anos e foi feliz. Lutou contra a morte e venceu-a durante alguns anos.
Para além de todas as memórias, das suas canções, do som da sua guitarra, fica-me o seu lema de vida: «o futuro é hoje».
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About Author

Alexandra Manes é natural da ilha das Flores, mas residente em Angra do Heroísmo, na Terceira. É licenciada em Educação Básica, pela Universidade dos Açores. É ativista ambiental, pelos Direitos Humanos e pelos Direitos dos Animais.

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