Os tenros e os duros

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Li numa crónica de José Tolentino Mendonça os versos que inspiraram este texto. São de Lao Tsé e creio que todos os devíamos conhecer:

Quando ingressam na vida,
os homens são tenros e fracos;
quando morrem,
são secos e duros.
Por isso, os duros e fortes
são companheiros da morte,
e os tenros e frágeis
são companheiros da vida.

Estes versos convidam a uma revisão dos valores que nos habituámos a privilegiar. A força e a dureza são tidas como condições propícias a assegurar o sucesso, por parecerem ser um escudo eficaz contra a adversidade. Ao duro é reconhecida força. Ele é o mais resistente e, na competição da vida, será sempre o mais determinado e provável vencedor. Já ao tenro, pouca auspiciosa será a sua moleza no embate contra os obstáculos.
Parece difícil evitar a comparação do acidente humano com o acidente mecânico. A chapa mais frágil é a que mais facilmente exibe os sinais da colisão, a que se deforma numa maior extensão e a que exige reparação mais demorada. É a pior, portanto, para assegurar uma viagem em segurança. Acontece, porém, que não somos máquinas e que o nosso desempenho não deverá ser comparado ao dos veículos automóveis.
Num lugar recôndito do nosso subconsciente ainda sobrevivem vestígios de uma sabedoria percorrida pela ideia de que a vida se deixará saborear melhor por quem se mantenha sempre tão maleável e brando como quando nasceu. Talvez seja por isso que raramente reconhecemos a dureza – própria ou alheia – sem uma tristeza explícita ou mal reprimida. Quando assumimos que estamos ‘empedernidos’ ou ao abrigo de uma ‘carapaça’, algo na voz, no olhar ou no silêncio que se segue acaba por ensombrar a suposta fortaleza em que nos tornámos.
No fundo, sabemos que são os tenros os mais preparados para caminhar no fio da vida. O duro ajeitar-se-á pior aos acidentes do solo, tropeçará mais vezes – e, de cada vez que cair, se não tiver aprendido com as quedas anteriores a abandonar a armadura – rolará a cada novo tombo uma distância maior sobre pedras e escolhos, levando consigo todos os que a ele se agarraram.
O tenro poderá prosseguir mais lentamente, mas equilibrar-se-á melhor sobre a lâmina estreita, moldar-se-á melhor aos grãos, sem esmagar nem ser esmagado. Caminhar com ele será sempre uma experiência mais doce. Ele será menos veloz, é certo. Parará para cuidar das feridas, pois cada pequeno arranhão lhe doerá e merecerá atenção. Mas é igualmente certo que fará o mesmo pelos seus companheiros de viagem e a cada paragem aprofundará o conhecimento sobre o lugar onde a pele rasga mais fundo e o que melhor a cicatriza.
O duro fingirá não ter sequer uma nódoa negra que lhe tire o sono até chegar o dia em que, de tão seco e duro, nem mais um passo conseguir dar.
Este retrato é parcial. Falta-lhe o traço decisivo para mostrar que, feitas as contas ao peso de cada um, é o leve que anda melhor na vida: é a própria leveza a sua força. Porque a vida não se deixa vergar e aproveitará todas as oportunidades para demonstrar que é dela o monopólio da dureza. E tratará sempre pior os que quiserem com ela rivalizar.
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About Author

Professora Auxiliar da Universidade dos Açores e membro integrado do CHAM-A – Centro de História de Aquém e de Além-Mar. Leciona, no Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, disciplinas nas áreas da Tradução e da Cultura Contemporânea.
Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português e Inglês), fez Mestrado na UNL em Estudos Anglo-portugueses, com uma dissertação sobre o pensamento político de H. G. Wells. Tem um Doutoramento em Estudos Anglo-americanos, na especialidade de Cultura Inglesa, com uma tese sobre Bertrand Russell.

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