A cidade como território educativo

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +
A 30 de novembro assinala-se o Dia Internacional das Cidades Educadoras. 496 cidades de diversos países, sobretudo da América e da Europa, fazem parte da Associação Internacional das Cidades Educadoras (AICE). Mas o que é ser uma cidade educadora?
Ainda que limitar-me a uma página me obrigue a abordar este assunto pela rama, filtrando e descurando determinados aspetos, opto por deixar o meu contributo à efeméride. Por se tratar de um assunto que me é caro, por acreditar na pertinência de se adotar políticas culturais educativas e, sobretudo, porque, nos tempos coevos, ainda há quem encare que a educação é restrita a períodos específicos da vida de um individuo (infância e juventude) e exclusivo de espaços de educação formal, negligenciando o papel que os de educação não formal e informal podem ter na formação de um indivíduo.
Na contemporaneidade, é a Edgar Faure que se atribui a paternidade do conceito de cidade educadora. O autor chama a atenção para o capital educativo da cidade, para a premência de se repensar espaços públicos e para a necessidade de haver intencionalidade pedagógica nas ações adotadas. Ao mesmo tempo reforçou a importância da educação ao longo da vida e de diversos espaços e instituições assumirem o seu papel educativo. Para Faure esta seria a educação do futuro.
Esta ideia-projeto de cidade educativa vai desembocar em reflexões várias que irão estar na origem da Carta das Cidades Educadoras, corporizada em Barcelona em 1990. Trata-se de um marco na educação, politicamente sobretudo, por a cidade passar a ser vista como um sujeito coletivo que vive num território – com personalidade e identidade própria – passível de ser educativo. A cidade é, ou pode ser, uma escola a céu aberto.
Na Carta são elencados vários princípios que encaram a educação central e transversal a áreas como a saúde, ambiente, acessibilidades, cultura, para citar alguns exemplos. Centrando-me no trinómio cidade-educação-cultura, sublinha-se a importância de se desenhar um projeto educativo e cultural que deverá partir do diagnóstico da realidade social, cultural e educativa de um município. Ou, dito de outro modo: do que a cidade é para o que há-de ser.
Um projeto educativo e cultural revela-se de suma importância, até porque, como nos diz Alfieri “sem uma bússola corre-se o risco de transformar uma ideia belíssima, como a de converter a cidade num território educativo, num contentor de estímulos e iniciativas, todos úteis ou supérfluos na mesma medida” (1990, p. 84). Em traços gerais, importa que este projeto seja um compromisso partilhado pelos órgãos de poder local e pela sociedade civil, onde a tónica é colocada na educação permanente, com uma oferta formativa diversificada através dos meios e recursos da cidade. Central é, igualmente, a intencionalidade pedagógica nas ações empreendidas, o tornar os equipamentos acessíveis a diferentes públicos, e o potencializar o capital educativo da identidade local, do património e dos espaços culturais, com estratégias dinâmicas e criativas.
Em jeito de glosa, as cidades apresentam-se como um grande contentor onde, para além das escolas, museus e bibliotecas, existem as igrejas, os jardins, as ruas, os edifícios, os mercados, a arte pública. Uma cidade é, também, feita das suas memórias, da sua identidade cultural, manifesta na sua etnografia, património material e imaterial que lhe confere um ADN muito próprio. E são todos estes recursos que podem ser utilizados de um ponto de vista educativo, através de uma didática do património, dos serviços educativos ou de ações de mediação cultural que auxiliem o cidadão a aprender na e a cidade. É que, como aponta Patrício (2009) “a ignorância da cidade que é muito mais geral do que se pode pensar, é um desperdício da cidade como escola viva” (p. 14).
Share.

About Author

Licenciatura em Ciências da Educação (2003) pela Universidade de Coimbra. Pós-graduação em Supervisão Pedagógica e Formação de Formadores (2006), igualmente pela Universidade de Coimbra. Mestrado em Museologia, Desenvolvimento e Património (2017), pela Universidade dos Açores. Foi coordenadora da área da Educação e Cultura na Câmara Municipal de Lagoa. Encontra-se a exercer funções como adjunta do Secretário Regional para as Relações Externas.
Encontra-se a exercer funções como adjunta do Secretário Regional para as Relações Externas.

Comments are closed.