“Então, mas já publicaste três livros e não te consideras um escritor a sério?”

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Esta semana estive presente no programa “Açores Hoje”, da RTP-Açores. A jornalista, a quem agradeço a simpatia, tratou-me por “escritor”, uma vez que fui lá com o peso de três livros já publicados: dois de poesia, em 2015 e 2016, e um, agora em 2017, de investigação histórica.

Corrigi-a: “não, sou apenas um mero aspirante a escritor”. Mas não foi a primeira vez que me sucedeu tal situação. Normalmente partem do pressuposto que, só por escrever e publicar, sou escritor ou, mais grave ainda, poeta. Não: o escritor não se torna escritor somente se cumprir religiosa e assiduamente com os deveres inerentes ao verbo “escrever”. Não! E, pior, não se torna escritor se estimular o verbo “publicar”. Não! Torna-se, isso sim, escritor ou poeta se concretizar, no mundo e nos outros, o verbo “iluminar”.

Não é fácil iluminar, acender uma vela, carregar um candelabro pelas trevas fora ou abrir o coração aos espinhos do mundo e sorrir com a eterna sabedoria tão própria dos génios. Eu, pessoalmente, não gosto do peso da palavra “escritor” ou da palavra “poeta” na minha vida, e tenho todo o direito de ser assim. Quando eu penso na palavra “poeta” surgem-me logo várias imagens: a face de Pessoa, de Camões, de Sophia, de Cesário Verde, de Antero de Quental, de Mário de Sá-Carneiro ou de Mia Couto. Quando ouço a palavra “escritor”, no momento, surge-me Vergílio Ferreira, José Saramago, Albert Camus ou Eça de Queirós.

Esses para mim são poetas, esses para mim são escritores. Eu só sou o Júlio T. Oliveira, de 19 anos, o mero aspirante, porque atirarem-me a palavra poeta ou escritor à cara, para mim, implica estar sentado no mesmo quarto que os grandes da literatura, e eu não sou grande. Mete impressão: não, não, não sou do tamanho daquilo que sonho, sou – isso sim – do tamanho daquilo que provoco! Sou pequeno, bastante pequeno, por isso evito o rótulo para que não se iludam (ou desiludam) comigo e para que eu me desiluda a mim mesmo. Já sofri que baste com associações! Mas não é por me conotarem com o grupo onde se inserem os maiores que vou diminuir a ideia que já cultivei de mim mesmo: tenho auto-estima que baste para publicar e publico porque sobretudo amo partilhar.

O meu acto de partilha é um acto de amor, não um acto de arrogância intelectual: é, só, e somente, um acto de partilha com o mundo. É como abrasear com gestos um casamento: ao partilhar estou a abrasear com palavras, e com amor, o mundo. É um acto de partilha que tem alguns poucos objectivos: tentar iluminar, sabendo que é difícil, porque só com grande engenho se acende uma vela no mundo, repito; inspirar outros jovens da minha idade, num mundo em que as feridas abertas da juventude ainda não começaram a cicatrizar e, por fim, minimizar a solidão dos oprimidos, amplificar a esperança dos sonhadores e conquistar o coração dos seres anestesiados, mas, no fundo, absolutos e sedentos de vida.

Quero, com esta crónica, deixar de ser visto como estranho e lutar pelo direito de ser só um rapaz que adora escrever coisas. Ridículas, estranhas, parvas, tolas, inúteis, lixo ou meio lixo…. Sou eu no assumir absoluto e sem temor de mim mesmo! Já tive a minha dose de aparição existencialista: com ela percebi que o meu caminho é dar, dar aos outros, dar à minha terra, partilhar e ser feliz com essa infelicidade de ser amaldiçoado com o condão de gostar de estar vivo com os outros.

Assumo, portanto, todos os riscos de estar vivo.

Júlio Tavares Oliveira

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About Author

Júlio Tavares Oliveira tem 19 anos e é estudante. É natural da cidade de Lagoa, onde reside. Crê ser um legítimo aspirante a escritor/poeta, já tendo publicado duas obras literárias – uma em 2015 e outra em 2016. Frequentou, embora de forma breve, o curso de Ciência Política, no ISCTE-IUL, em Lisboa.

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