Um do outro

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Recebeu a raiva e o desprezo que atiravam sobre si com alguma perplexidade. Não se protegeu. Tentou entender as razões dos outros, como sempre fazia. Criou uma empatia que lhe gastaria de súbito a paz, pois inundou-se de raiva e desprezo ao compreender a injustiça a que se via agora sujeito. Amargurou-se em pensamentos vingativos, cansou-se dos instintos e expulsou de si os outrora amigos, passando-os para o lado dos inimigos perigosos.
A estrada por onde seguia deixara de ter a segurança que conhecera. Hesitava e preparava-se para lutar a cada esquina, a cada aglomerado de casas. Os dias apareciam-lhe carregados de interrogações que já não sabia suportar.
Foi assim que o encontrei. Caído no seu próprio chão, num ódio construído na desilusão. Rosnou-me e não conseguiu disfarçar a perplexidade ao perceber que eu não me protegia. Continuei a avançar, aproximei-me como se a sua raiva e aquele farrapo de desprezo não existisse. Tentou opor-se à empatia que eu estendia entre nós. Ali estava eu, ameaçando-o com uma paz que aquele corpo imaginava impossível.
Quando lhe afaguei o pelo sujo, estremeceu. Uma réstia de carinho perfurava a raiva aprendida. Uma réstia de saudade perfurava o desprezo que começava a não saber carregar. Dei-lhe alimento, para o corpo e para o afeto. Lavei-lhe o pelo, fazendo escorrer pelo ralo o medo e a tristeza. Abracei-lhe a desilusão já pouco convicta, para entrar na sua alma de instinto e confiança.
Soube que o salvara ao vê-lo seguir-me, confiar nas palavras que lhe oferecia, ao senti-lo rente às minhas pernas, reconhecendo o que antes fora. Soube então que pertencíamos um ao outro, mesmo até depois de a morte nos separar.

Margarida Fonseca Santos
Ilustração de Luís Cardoso
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