“O aluno [deixa] de ser um mero consumidor e [passa] a ser um criador!”

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Com a chancela da editora Manuscrito, Rui Lima desafiou todos os pais, professores, educadores e envolvidos na educação a pensar sobre “A escola que temos e a escola que queremos”. O livro foi publicado este ano e tem o objetivo de fazer refletir todos os agentes educativos. A 9idAzoresNews questionou o autor sobre toda a realidade atual da educação e o resultado vem já abaixo. Acompanhe-nos!

Diz que o mundo mudou, a escola não. Como resume este seu novo livro?
Este livro é, acima de tudo, uma reflexão que resultou da experiência acumulada como professor, ao longo de dezasseis anos, mas também, de todo um conhecimento adquirido através da participação em diversos projetos relacionados com a inovação pedagógica. É, por isso, um livro que aborda alguns dos temas que estão no centro do debate educativo, mas que tem como principal objetivo colocar todos aqueles que se interessam por estas temáticas a refletir, de forma a construirmos, todos, uma escola melhor. A escola é um meio extremamente complexo, que é influenciado por um conjunto muito diversificado de fatores e onde convivem diferentes “atores”. Por essa razão, este livro não se dirige especificamente a professores, pais, alunos ou decisores, tentando sim, abordar várias questões relacionadas com o ensino, mas tendo sempre a preocupação de considerar as diferentes perspetivas dos diversos participantes no processo educativo e debruçar-se sobre o papel que cada um deles tem.

Os alunos têm cada vez mais atrativos que os podem afastar da escola. Como cativar a atenção dos mesmos?
O que devemos pensar é: por que razão esses atrativos afastam os alunos da escola? E a resposta a essa questão é simples: a escola, por comparação com o mundo que a rodeia, é muito pouco atrativa. É por isso importante tentar articulá-la com o mundo real, chamando os alunos a participarem mais ativamente no seu processo de aprendizagem, até porque as crianças e jovens têm também hoje um papel muito mais ativo no seio familiar. É fundamental trazer para dentro das salas de aula ferramentas que fazem parte do seu dia-a-dia, neste particular, a tecnologia, sem a qual as crianças se sentem desligadas do mundo e promover um ensino onde o aluno possa interagir com os outros, colaborar, criar produtos da sua aprendizagem e refletir acerca do seu trabalho, do trabalho dos outros, mas também acerca do mundo que a rodeia. No fundo, é importante o aluno perceber que toda a aprendizagem é um processo construído por si mesmo, onde ele toma decisões, é ouvido e tem nos outros importantes aliados na aquisição e desenvolvimento de competências que lhe poderão vir a ser bastante úteis no futuro. Só uma escola ligada ao mundo será capaz de mostrar aos alunos a sua importância na formação integral do indivíduo.

Na sua opinião, o sistema atual de ensino pode estar a castrar a criatividade das crianças?
Utilizando as palavras de Ken Robinson, naquela Ted Talk famosíssima, tenho a certeza de que o sistema atual de ensino “mata a criatividade”. Em primeiro lugar, porque os alunos, no modelo tradicional de ensino, raramente são desafiados a criar o que quer que seja, depois, mesmo que isso aconteça, não há, na generalidade dos casos, nas escolas, uma dinâmica de trabalho por projeto que envolva um processo criativo desde a génese de um determinado trabalho até à conclusão e apresentação de um produto final. A criatividade só é estimulada quando os alunos são incentivados a decidir, a arriscar, a fazer diferente, a fugir à norma, no fundo, a criar algo seu. Ora, num sistema de ensino excessivamente preocupado com os conteúdos e com os programas, com a preparação para provas e exames, com as notas e com a memorização da matéria (normalmente transmitida aos alunos através de uma aula expositiva), a criança, e posteriormente o jovem, vai perdendo a sua enorme capacidade criativa. Esta é uma das principais mudanças que é importante operar no ensino, o aluno deixar de ser um mero consumidor e passar a ser um criador! E quando ele for desafiado a criar, a criatividade irá florescer!

Os pais também têm que mudar para que o sistema funcione de outra forma?
Os pais são uma peça fundamental neste processo de mudança, pois nunca terá sido tão importante um diálogo entre todos os atores educativos como é hoje e se, por um lado, como já referi, é preciso, cada vez mais, articular-se com o mundo em que está inserida, sendo essencial os alunos perceberem que há um envolvimento de todos na sua aprendizagem, por outro, o mundo mudou bastante nos últimos anos, mas muitos pais, tal como muitos professores, frequentaram um modelo de sistema educativo que, atualmente, não dá resposta às necessidades da sociedade. Logo, precisamos de pais sensíveis a estas mudanças. Há uma emergência em mudar a cultura da nota, a cultura da penalização do erro, a cultura de apenas quem é bom a Matemática e Português é que é inteligente, a cultura dos bons e dos maus alunos. Precisamos de mudar mentalidades, mudar a forma como encaramos o processo de ensino e de aprendizagem e sendo os pais os principais responsáveis pela educação das crianças, é cada vez mais importante promover a sua participação na vida escolar e no debate educativo.

É da opinião de que não é preciso ir lá fora para ver casos de sucesso, que Portugal já os tem. Dê-nos alguns exemplos.
Felizmente, assistimos, neste momento, a uma crescente participação dos professores em eventos relacionados com a inovação pedagógica. A Direção Geral de Educação tem promovido um conjunto de iniciativas, enquadradas em projetos internacionais dentro desta área, e a participação dos professores e das escolas portuguesas é substancialmente superior à dos outros países envolvidos. O projeto Co-Lab, por exemplo, que está relacionado com a aprendizagem colaborativa, conta com um número de professores portugueses envolvidos superior ao número de professores inscritos de todos os restantes países juntos. Portugal é também uma referência, no que diz respeito à implementação e dinamização de Ambientes de Aprendizagem Inovadores, um projeto também com enorme aceitação por parte das escolas nacionais. No que diz respeito à programação no 1º ciclo, a adesão das escolas tem sido absolutamente incrível, sendo que, hoje, uma parte substancial dos alunos do 1º ciclo já aprende conceitos de programação.
Em 2011, conheci o então diretor da Escola de Lagoa, nos Açores, a propósito de um evento Microsoft em que participei e nele tive a oportunidade de constatar que aquela escola, em vários domínios, estava na vanguarda do que de melhor era feito a nível mundial em Educação. Daí para cá, e mais concretamente, nos últimos dois ou três anos, têm surgido cada vez mais escolas a querer mudar, a querer fazer diferente e a proporcionar aos seus alunos experiências de aprendizagem que lhes venham a ser úteis no futuro. Isso é um motivo para acreditarmos que se está a viver uma transformação real na Educação.

O Rui é considerado um dos professores mais inovadores do mundo. O que é necessário para que mais professores consigam esta distinção?
Não possuo o segredo para alcançar o sucesso e não creio sequer que existam fórmulas que garantam o sucesso da aprendizagem em qualquer contexto. Como referi anteriormente, a escola é um meio bastante complexo e cada escola, cada aluno, cada professor têm características muito próprias, o que nos remete também para a perversão de importar modelos de outros contextos ou aplicar estratégias, pelo simples facto de terem resultado noutras realidades.
Contudo, e de uma forma muito sucinta, acredito que os professores devem ter em consideração algumas atitudes que podem, de facto, trazer a mudança, a inovação e uma escola mais ajustada aos alunos que temos. Os professores devem por isso arriscar, sair da zona de conforto, não recear perder o controlo das aulas e dar aos alunos o poder para decidirem, a liberdade para criarem e o apoio para aprenderem.

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About Author

Formada em Comunicação Social e Cultura, pela Universidade dos Açores, Patrícia Carreiro tem como paixão os livros. Já escreveu e publicou os seguintes livros: A Distância que nos Uniu, Amizade a branco e preto, O fio perdido e Os limites do coração.
Enquanto jornalista já passou pela RDP e RTP Açores, Açoriano Oriental, Expresso das Nove e JornalDiário.com. Foi representante da Chiado Editora e da Pastelaria Studios Editora nos Açores e coordena o projecto EscreVIVER (n) os Açores.
Atualmente, é diretora editorial e jornalista da 9idAzoresNews.

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