Na literatura: acerca da importância de iluminar

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A literatura, como tantas outras artes, permite duas coisas (que só com muita dificuldade, pelo menos em Portugal, se obtêm): viver-se em função de, em vida – iluminando-se, muitas vezes -, e, na morte, continuar a viver-se em função de, mas só pelo nome que tivemos – e a luz, muitas vezes, permanece acesa.
Albert Camus, que ignora, quase despreza, a imortalidade segundo o seu raciocínio absurdo (“Ó minha alma, não aspires à vida imortal, mas esgota o campo do possível” – frase de Píndaro, citada no início do seu conhecido ensaio publicado em 1942) escreve em O Mito de Sísifo: “escolho somente homens que apenas procuram esgotar-se ou dos quais eu tenha, por eles, consciência de que se esgotam”.
Albert Camus, igualmente, no seu raciocínio absurdo, acrescenta que “o que conta não é viver melhor, mas viver mais”. Do raciocínio absurdo posso concordar com alguns aspectos, mas não com todos. Mas retiro daqui o essencial: a necessidade de fazer, porque só com a quantidade é que surge a qualidade – e n´ O Mito de Sísifo realça-se exactamente esse ponto.
Na literatura deve ser igual: tentativa e erro até dar luz. Pegar em duas pedras com boa forma, roçá-las sem pudor até dar luz – resistindo e sem pensar em ascensões à categoria da imortalidade, mas pelo simples e puro e genuíno prazer de dar a alguém.
Saber que são pedras, que temos mãos, ter um objetivo e trabalhar para dar aos outros com qualidade: na literatura damos de várias formas, importa realçar.
E quando o escritor for luz, deve fazer por iluminar para sempre, pela morte adentro até. Fê-lo Miguel Torga, fê-lo Fernando Pessoa, fê-lo Antero de Quental, fê-lo Albert Camus, fê-lo Vergílio Ferreira. Iluminaram nas trevas – e eles mesmo se encontravam bem no meio delas – onde toda a gente, sem excepção, resiste com bravura na trincheira do abandono e da solidão que é a vida sem eufemismos nem hipérboles: bem no meio, na ferida, como deve ser.
E não há idade nem ignorância que me proíbam, moralmente ou de qualquer outra maneira, de começar sem saber nada ou sem ter, na prática, nada para dar: eu, pessoalmente, escrevi o meu primeiro poema com 16 anos. Tinha eu paixão sem saber, ainda, o que era amor. O que sabia eu senão que o amor era duro e frio e cruel? O que sabia senão que a vida era difícil e que o sofrimento inevitável? O que sabia eu senão o superficial, que tomava como certo e imutável? Não sabia nada. Nem sabia escrever poemas, confesso.
Mas peguei nas pedras sem lhes medir o peso, sem lhes recear pela faísca de que delas resultaria e que me podia queimar as mãos, sem lhes recusar por comodismo, medo ou preguiça.
Caramba: fui, mais tarde, enganado por uma editora, fui. Deviam ter-me dito “não”? Sim! Mas não estou a falar disso. Estou a falar em começar, da primeira raiz, do núcleo duro do meu primeiro livro: o querer escrever um simples poema! Publicar é um caso à parte, mais polémico.
Atenção: não me quero glorificar. Estou, na prática, a escrever este texto para me perceber a mim mesmo – estou a escrever, essencialmente, para mim. Perdoem-me, portanto, por fazer disto uma espécie de confessionário à frente do espelho.
Voltando ao essencial: o nobre trabalho do escritor é esse: o de iluminar o caminho com verdade, o de administrar analgésicos verbais e, finalmente, o de ser esteticamente um quebra-corações, nem que para isso tenha de mentir.
A luz nem sempre se acende com duas pedras de verdade: há, muitas vezes – e a intenção não é a de trair –, um desequilíbrio dos elementos que consideramos, à partida, completamente verosímeis e que nos dão luz – considero que, à parte dos meios para, o fim – a luz que se acende num mar de trevas – é de realce e de uma nobreza de espírito incrível, até porque o escritor sacrifica-se sempre: dá muito, dá tudo de si. E muitas vezes não recebe nada em troca – nem mesmo a luz dos outros.
O escritor ilumina-se com o pouco que tem: com o que sobra da luz que dá aos outros. Come as migalhas do pão que dá, na prática.
E é uma nobreza incurável.

Ilustração por Luís Cardoso

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About Author

Júlio Tavares Oliveira tem 19 anos e é estudante. É natural da cidade de Lagoa, onde reside. Crê ser um legítimo aspirante a escritor/poeta, já tendo publicado duas obras literárias – uma em 2015 e outra em 2016. Frequentou, embora de forma breve, o curso de Ciência Política, no ISCTE-IUL, em Lisboa.

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