José Lisandro: O último trancador de baleias nos Açores

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José Lisandro, ou melhor, José Raimundo Xavier, nome da pia, é uma figura castiça que conversa e graceja com toda a gente.

O avô, que era da Ribeira Quente, ilha de São Miguel, foi com 14 anos trabalhar para casa do tio chamado Lisandro. E foi daí que surgiu o nome pelo qual José Raimundo é famosamente conhecido. Mas esta história de nomes trocados, ou todos diferentes, é uma tradição familiar, digamos assim, pois o pai, João Bernardo Mendonça, até aos 50 anos nunca teve filho algum com o seu sobrenome.

No passado dia 9 de agosto, este florentino de gema, mas faialense de coração, completou 88 primaveras, visitadas por muitos outonos, e diz com graça que só foi registado um ano depois de ter nascido. E só não foi mais tarde, porque o tio José fez carta de chamada à mãe de José Lisandro – a família podia ter ido parar à América, mas o chefe de família assim não entendeu; foi no Registo Civil, por causa de fazer os papéis para embarcar, que se percebeu que o bebé Raimundo ainda não havia sido registado.

Por estar no Faial, a viver e a conviver com a malta do Clube Naval da Horta, na festa que foi a Entrega de Prémios do XII Encontro Internacional de Vela Ligeira, cantaram-lhe os parabéns, desejando muitos mais verões.

E porque não pode haver aniversário sem prendas, o menino Lisandro foi obsequiado com um estojo em vidro, com uma baleia no interior. Mas nota-se que o aniversariante está habituado a estes mimos – e aprecia! – pois quando perfez 8 décadas ao serviço da vida, houve um grande jantar festivo no CNH, altura em que recebeu um estojo com ferramentas pequenas em osso de baleia, que muito apreciou. E os olhos do velho lobo do mar brilham com estas memórias e manifestações de carinho e de amizade por parte de uma gente que tem como sua.

Um lobo do mar

É no mar que este velho lobo se sente bem. Por isso, a vida foi passada por aqui e por ali, tendo como companhia os amigos, as baleias, os passageiros e as namoradas, em terra.

Começou a arriar baleia aos 13 anos, atrás do tio, António Raimundo, que era mestre de lancha.

Com 15/16 anos arriava nos botes. Aos 17 tirou a Carta de Trancador, na Capitania de Santa Cruz das Flores, ilha onde começou a arrear. No ano de 1930, foi como trancador para a Terceira, regressando posteriormente a casa. Há meio século veio para o Faial arriar como trancador. O José Rufino, que era das Angústias, mas que se mudou para a freguesia do Salão por lá ter casado, era oficial de baleia, tendo sido “o melhor oficial” que José Lisandro teve, por ser “muito calmo e discreto”. Após um ano no Faial, para onde veio contratado pelo Manuel da Rosa, do “Costa & Martins”, regressa à sua ilha. Foi o feito alcançado no anterior à vinda para o Faial, em que apanhou 28 baleias, que esteve na origem deste contrato, ao abrigo do qual recebia 3 soldadas no fim da época e tinha casa para morar.

Tudo somado, perfaz 30 anos como trancador nas Flores, Faial e Terceira. Não admira, pois, que diga de forma muito natural que a sua vida foi o mar. Só assim se explica que, já depois de a faina ter acabado, continuasse a vivê-la intensamente e quando estava deitado na cama e ouvia uma bomba, dava um salto, pensando que o passado se fizera presente.

Mas o Faial, por onde andou embarcado em navios de passageiros, como o “Carvalho Araújo” – pois era preciso ganhar a vida “no que calhava” e o mar afigurava-se como um chamamento – sempre teve outro encanto para este florentino, ou não fosse a terra onde há 56 anos deu o sim a Regina Ávila Pereira Xavier, moradora para os lados da Feteira. Deste amor nasceram dois rebentos, um rapaz e uma rapariga, mas quis o destino que ele partisse aos 23 anos, fruto de uma doença súbita. A filha não encara o mar com a coragem do pai.

O gosto pelo mar

As regatas de Botes Baleeiros que animam o programa do Festival Náutico do Clube Naval da Horta são encontros sagrados para José Lisandro que, por isso mesmo, não falta a nenhuma. A grande amizade que nutre por José Decq Mota fica bem patente na forma como se tratam. José Lisandro não esconde o quanto gosta do Faial, onde se sente muito bem; do Clube Naval da Horta, onde entra como se fosse em sua casa e se sente à vontade; da Semana do Mar, festa que aprecia muito; e desta gente, que vê como uma grande família, que o acolhe e escuta.

José Lisandro é um contador nato de histórias e testemunha de um passado ainda quente, que nos identifica e distingue.  

Texto e fotos de Cristina Silveira – Clube Naval da Horta

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