Tempo clandestino

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Quanto tempo passara? Não sabia, perdera a noção das horas. Fechou mais a janela. Depressa se arrependeu, o ar abafado dentro do carro incomodava-a. Resolveu sair. Precisava de esticar as pernas e afastar o sono.

Tudo lhe parecia uma enorme perda de tempo, pensou. Se houvesse ali, naquela casa, uma reunião da resistência, já teria notado movimento. Até àquele momento, nada acontecera. Teria sido uma pista falsa? Ou fora alguém a tentar afastá-la da ação, do centro de toda a investigação? Haveria uma outra investigação, impedindo-a assim de conhecer os contornos da verdadeira operação?

Fosse qual fosse a razão, de nada adiantava pensar nisso. E não era fácil, perseguir os que pareciam realmente lutar pelo mundo de todos. Envolver-se com um dos homens da polícia local tornara tudo ainda mais difícil. Não desistiria: era o homem da sua vida. Podia conversar com ele as dúvidas da tarefa ingrata, passada para as suas mãos com liberdade para chacinar.

Fechando o carro, aproximou-se mais da casa. Contornando-a, pôde então ouvir um emaranhado de vozes. Por instantes, exaltavam-se, para depois se acalmarem. Espreitou para dentro, convencida de que ninguém a veria.

De repente, a porta abriu-se, deixando-a sem defesa. A mão longe do coldre. O coração rente àquele rosto conhecido. Conhecido, embora fora de contexto. Ou seriam os pensamentos a trotar para fora do contexto?

– Tu? Infiltrado…?!

– Sim, mas não como imaginas.

As razões, sendo tantas, começaram a sufocá-la. Nada fazia sentido. Não. Tudo começara a fazer sentido.

Em segundos, reviu conversas sobre como alterar o estado das coisas. Como devolver a decisão a quem deve tomá-la. Conversas aninhadas nos dois corpos, entrelaçados.

– Entra, serás bem-vinda.

Ela hesitou. Podia pôr fim à reunião, denunciando-os. Podia pôr fim ao que começara entre eles, eliminando-o dos seus dias. Ou estaria a pôr fim a um início de esperança? Ele aguardava, sem a pressionar, impressionando-a com uma franca tranquilidade.

– Sabes o que estás a fazer? – perguntou-lhe, a precisar de uma frase de encontro ao rosto que aprendera a amar.

– Claro. E tu também. Vais encontrar mais caras conhecidas. Porque julgas que ficaste hoje de guarda?

Largou o revólver. Encaminhou-se para a porta. As dúvidas tornavam-se agora passos certeiros na direção de um futuro possível. Para eles e para todos os outros.

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About Author

Margarida Fonseca Santos nasceu em Lisboa. Foi professora de Pedagogia e de Formação Musical em várias escolas. Começou a escrever em 1993 e tem já uma vasta obra publicada, a maioria na área infantojuvenil, e grande parte dos seus livros estão incluídos no Plano Nacional de Leitura. É responsável pelo blogue «Histórias em 77 palavras», uma plataforma de desafios de escrita para pessoas de todas as idades.

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