“Um aluno que não lê não tem cultura nem sabe escrever corretamente”

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A afirmação vem da Professora Ana Isabel Serpa, coordenadora da Rede Regional de Bibliotecas Escolares nos Açores (RRBE), em entrevista à 9idAzoresNews.
O projeto é recente no arquipélago, mas os resultados já começam a fazer sentir. A adesão tem sido motivo de satisfação para a Professora Ana Isabel, que afirma, perentória, que ainda muito há a fazer com os alunos, professores e famílias.
Seja pai, professor, encarregado de educação ou aluno, acompanhe-nos nesta entrevista que, certamente, enriquecerá a sua noção sobre a importância de uma biblioteca.

Como nasceu o projeto Rede Regional de Bibliotecas Escolares nos Açores?
A Rede de Bibliotecas, em Portugal Continental, existe desde 1997, sob a alçada da Direção Geral do Ensino Básico e Secundário. A instalação efetiva de uma rede de bibliotecas nos Açores só começou no dia 1 de setembro de 2014, fazendo parte da equipa eu e o professor Eduardo Naia.

Que tipo de atividades têm desenvolvido a Rede nos Açores?
A Rede Regional de Bibliotecas Escolares dos Açores, a avaliar pelo Portal criado no ano letivo passado (http://rrbe.azores.gov.pt/), tem tido uma atividade muito intensa, sobretudo no que concerne a organização e a gestão das bibliotecas escolares; a criação de bibliotecas inclusivas no âmbito do Projeto «Todos Juntos Podemos Ler – Açores», com o apoio da Fundação PT; a implementação de projetos de promoção da leitura inovadores, como «O Newton gostava de ler!», «Ler Mais no 1º ciclo», «Ler é saudável!»; a formação creditada e não creditada aos coordenadores das bibliotecas escolares de toda a Região, e bem assim aos assistentes operacionais que nelas trabalham; a aplicação do Referencial «Aprender com a Biblioteca escolar» (do pré-escolar ao 12º ano); o convite a escritores ilustres para virem às nossas escolas, implicando uma verdadeira preparação dos alunos.

Este tipo de projeto fazia falta ao nosso arquipélago?
Sem dúvida! O nosso problema da descontinuidade territorial acentua ainda mais o nosso isolamento, donde a imperiosa necessidade de trabalhar em rede, partilhando projetos, angústias e ideias novas, além de podermos passar a partilhar recursos ou documentos de natureza vária através do catálogo coletivo das bibliotecas escolares dos Açores.

Que desafios são necessários enfrentar ainda?
Temos muitos desafios a enfrentar: a formação especializada dos coordenadores das bibliotecas (futuros professores bibliotecários), a formação especializada da equipa coordenativa da Rede; a necessidade de aumentar a verba afeta às bibliotecas escolares no seio de cada uma das unidades orgânicas; a necessidade de dotar as bibliotecas escolares de mais computadores e de livros mais atualizados; a necessidade de formação contínua que faça com que os funcionários das Bibliotecas Escolares sejam permanentemente formados, ativos e dinâmicos na sua ação do dia a dia, pois eles são «o rosto da biblioteca». Também há ainda espaços físicos demasiado diminutos para uma biblioteca escolar. Existe um manual de instalações de bibliotecas ao nível nacional que obriga a que as diferentes zonas de funcionamento da biblioteca tenham determinadas dimensões tendo em conta o rácio dos alunos que a frequentam.

Que melhoria veio trazer este projeto aos Açores? O que já se conseguiu atingir com este projeto?
Não se deverá falar de «projeto», mas, sim, de «Programa». Não se pode comparar a ação da Rede nacional, com vinte anos, com a ação da Rede Regional, com apenas 3 anos. O «Programa RRBE» pretende transformar as bibliotecas em espaços ativos, modernizados, muito frequentados pelos alunos, professores e demais comunidade educativa, particularmente as famílias. Temos de levar os alunos à biblioteca quase diariamente, não apenas para ler um livro em suporte de papel, mas para dar aulas, assistir a conferências, fazer uso de uma boa revista online ou não, fazer uma boa apresentação oral, usar novas APP e novas ferramentas digitais ao dispor de todos.

Em termos muito práticos, o «Programa RRBE», nestes três anos, conseguiu fazer passar a imagem de que os Planos Anuais de Atividades (PAA) devem contemplar ações de melhoria e não ser um mero rol de atividades apenas destinadas a festejar dias temáticos. Os PAA devem contemplar 4 domínios: o da articulação da Biblioteca Escolar com o currículo e com os docentes; o da literacia da leitura, dos média e da informação; a gestão da biblioteca e as técnicas de merchandising de que ela se socorre para construir a sua imagem e a sua identidade digital; os projetos e parcerias com outras instituições, empresas ou organizações.

Além disso, têm estado no terreno 2 professores a implementar projetos de leitura no 1º ciclo, envolvendo milhares de alunos em todo o Arquipélago, e, via Skype ou teamviewer; uma das colegas da área de Informática tem desenvolvido ações de formação no novo software para as bibliotecas escolares – o Koha – que vai permitir elaborar o primeiro catálogo coletivo das Bibliotecas Escolares de toda a Região.

Acabado agora o ano letivo, que balanço fazem os eventos ocorridos ao longo do ano?
O balanço que fazemos da nossa ação é muito positivo. Interessa que se sinta que está a haver transformações, que essas mudanças são avaliadas e correspondem a factos e a números que revelam a exatidão dos públicos que são alvo dos projetos.

Quem integra a vossa equipa?
A nossa equipa, à semelhança da equipa da Rede de Bibliotecas Escolares, em Lisboa, é formada por quatro professores, a maioria deles com uma forte experiência ligada às bibliotecas escolares, com formação, ou com competências informáticas elevadas que permitam ao programa crescer a vários níveis e para bem do utilizador.

Que importância tem, na sua opinião, uma biblioteca na vida dos alunos?
As bibliotecas congregam o ensino, as memórias e a nossa memória em vários suportes. Não são uma sala de aula. São espaços de civilidade, socialização, saber falar, saber ouvir, fazer escolhas por um determinado autor, espaço de discussão e tertúlia. Em termos concretos, um aluno que não lê não tem cultura nem sabe escrever corretamente. Mas as bibliotecas ultrapassam todo esse sentido de pragmatismo e vão mais longe na formação global dos seus utilizadores.

Patrícia Carreiro

RRBE: http://rrbe.azores.gov.pt/

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About Author

Formada em Comunicação Social e Cultura, pela Universidade dos Açores, Patrícia Carreiro tem como paixão os livros. Já escreveu e publicou os seguintes livros: A Distância que nos Uniu, Amizade a branco e preto, O fio perdido e Os limites do coração. Enquanto jornalista já passou pela RDP e RTP Açores, Açoriano Oriental, Expresso das Nove e JornalDiário.com. Foi representante da Chiado Editora e da Pastelaria Studios Editora nos Açores e coordena o projecto EscreVIVER (n) os Açores. Atualmente, é diretora editorial e jornalista da 9idAzoresNews.

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