“O arquipélago dos Açores será sempre o lugar que me salvou”

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Veio de Curitiba, no Brasil, para os Açores e não quer daqui sair. Monique Dias tem 20 anos, está a estudar Psicologia na Universidade dos Açores (Uac) e descobriu que o arquipélago foi o melhor que lhe aconteceu até à data.
O início, como sempre, teve as suas atribulações, mas o acolhimento foi feito de carinho e de amizades com um cariz verdadeiro e açoriano.
Monique veio com a família, pois o pai é pastor titular de uma Igreja Batista na ilha de São Miguel. O desafio foi feito ao patriarca que, naturalmente, estendeu o mesmo a todos os membros da família. A experiência tem sido positiva e a vontade de conhecer cada vez mais o arquipélago não diminui.
Em entrevista à 9idAzoresNews, a brasileira que adotou os Açores como seus contou-nos como tudo aconteceu e o porquê de por cá querer ficar.O estudo da área de psicologia já havia começado no Brasil. Monique estudava na Universidade Positiva de Curitiba, a qual “é uma das melhores universidades de psicologia no Brasil e a segunda melhor na América Latina na mesma área”, explicou-nos a jovem. A satisfação com aquela universidade era visível na forma como a descrevia. No entanto, toda a família vinha para os Açores e Monique não queria perder a oportunidade de viver em Portugal. “A minha família veio toda para cá; o meu pai, a minha mãe e o meu irmão. O meu pai é pastor e teve a oportunidade de ser titular de uma Igreja Batista aqui na ilha. Então, viemos para cá! Estava muito empolgada, porque íamos mudar e porque vínhamos para Portugal. Além disso, sair do Brasil parecia uma ideia muito boa.”

A verdade é que a jovem não gostava de morar em Curitiba. “Estávamos em Curitiba há sete anos, mas não sou de lá. Sou do Rio de Janeiro. Não tinha muitos amigos e os que tinha não estavam perto. Então era complicado. Na universidade tinha duas amigas apenas”, conta a estudante.

Ao chegar aos Açores, a situação mudou consideravelmente. “Quando cheguei aqui, foi um boom, porque sou brasileira; pensei que seria pela novidade, o que justificaria a abertura das pessoas para comigo.”

Mas o período de adaptação ao novo foi acontecendo com mais simplicidade do que Monique pensava. “Fiz muitos amigos com muita facilidade; os portugueses são muito simpáticos e muito diferentes da imagem que nós temos, que é a de serem mais fechados, carrancudos, firmes e duros. No final, não é nada disso!”, remata.

O início do curso não foi propriamente fácil, pois as diferenças entre o do Brasil e o da Uac eram visíveis aos olhos da brasileira acabada de chegar aos Açores. “Ainda não estava muito satisfeita com a universidade devido ao curso, porque o de Curitiba era mesmo excelente e cá era diferente; algumas disciplinas que eu tinha no Brasil não faziam parte do curso cá”, exemplificou Monique. No Brasil fez metade do primeiro ano, pois os anos letivos são 12 meses e não de 6 como em Portugal. “No início desmotivei, porque não tinha tanto contacto com a Psicologia como eu gostaria e o método dos professores de cá é muito diferente do dos brasileiros. Então, o meu pai começou a pesquisar universidades no Continente Português, em Coimbra, no Porto, entre outros, e até se pensou na hipótese de voltar para o Brasil, por mais que eu não gostasse desta ideia.” Mas tudo mudou a meio do caminho. “No segundo semestre entrei para a Tuna Com Elas. Decidi conhecer o mundo académico e percebi que as universidades portuguesas têm muitas coisas diferentes das brasileiras. Então, explorei as outras coisas que a Universidade Portuguesa tinha para me oferecer e apaixonei-me mais ainda”, narra com um sorriso de satisfação.

Outra diferença entre Portugal e o Brasil é a praxe, outro dos motivos que fez Monique ficar encantada. “A nossa praxe é muito diferente. Não temos cerimonial, nem queima das fitas, nem semana académica, nem nada disso. É somente a primeira semana em que estamos na universidade e pronto! Eu não fiz a praxe, mas tive contacto com muitas pessoas que a fizeram. Fiquei muito encantada!”

E foi preciso vir morar para Portugal para descobrir outras paixões. “O que eu não esperava era apaixonar-me pela música portuguesa, pelo fado; e o mais engraçado é que eu não gostava de música brasileira. Porém, depois de me apaixonar pela música portuguesa e pelo fado comecei a gostar da brasileira também. Foi um paradoxo muito estranho!”

Outras tradições como o grito académico ou as serenatas deixaram um sorriso permanente no rosto de Monique. A satisfação é tanta que a jovem tenciona apaixonar toda a família com a Uac. “Já avisei a família para virem daqui a dois anos quando eu fizer a minha queima, para aproveitarem tudo. E foi por tudo isso que já não quis ir embora”, admite.

Monique afirma que os portugueses são boas pessoas e que a ajudaram a decidir ficar por cá. “Não encontrei muitas pessoas que se afastassem de mim porque não sou de cá, mas alguns professores tiveram esta atitude. Soltavam piadas. Não respondia e deixava andar. Nos trabalhos esforçava-me mais para verem que nada tem a ver com eu ser brasileira. Os colegas de turma e de tuna nunca me fizeram sentir assim!”

As tunas revelaram-se um verdadeiro mundo novo para Monique, pois no Brasil nada disso existe, contou-nos a brasileira. Foi no festival de tunas masculinas, o El Açor, que Monique se apaixonou por este mundo da música das tunas. Toca violão na Tuna Com Elas e já sabe, também, manusear o contrabaixo.

A família também está encantada e quer ficar por cá. Mas não é só a Universidade que encanta Monique. Tal como no Brasil, a brasileira continua a viver com muita dedicação o mundo das igrejas batistas, onde o pai é pastor. No entanto, as igrejas do Brasil e as açorianas ainda são diferentes. “O primeiro impacto foi o tamanho. A igreja de lá era muito grande, com capacidade para 890 pessoas. A música também é muito diferente. Aqui faltam instrumentos e a presença de um maestro. Tínhamos no Brasil muitos jovens envolvidos na igreja, aqui é diferente.”

Apesar das diferenças, Monique afirma que foi fácil adaptar-se. Assumindo a sua família como protestante, a jovem explicou-nos que são da Igreja Batista desde os bisavós. Sendo o pai mestre em Teologia, Monique sempre teve a oportunidade de conhecer outras religiões e de escolher a que mais sentido fazia para si, a Batista.

Para definir a Igreja Batista, a rapariga contou-nos como tudo se vive neste tipo de religião. Na Igreja Batista “batemos palmas, dançamos e pulamos, se quisermos. Temos mais liberdade. Ninguém olha ou critica, somos mais livres. Estamos em casa”.

Quanto aos Açores, Monique admite que “a beleza natural não tem comparação”. A família mora em Ponta Delgada e Monique declara que as Sete Cidades, por exemplo, a apaixonam, tal como outros sítios dos quais ainda não sabe os nomes. As Portas da Cidade, no centro de Ponta Delgada, revelam-se, também, uma paixão para a brasileira.

“A qualidade de vida aqui é muito diferente. Estava acostumada com a agitação urbana e aqui é tudo diferente. Eu sei que é melhor, mas também sinto falta da poluição, da agitação. É calmo demais por vezes”, admite.

A nível de segurança, Monique adianta que aqui se sentem mais seguros por cá, mas que a nível financeiro não existem grandes diferenças.

A estudante brasileira afiança que conhece vários brasileiros cada vez mais interessados e curiosos pelos Açores, quer para estudar, viver ou apenas visitar.

Em jeito de conclusão, quisemos saber o que significa o arquipélago para Monique. A resposta não deixou dúvidas. “Os Açores para mim são um lugar de refúgio. Começar tudo de novo por aqui foi um bálsamo, um recomeço, por isso os Açores para mim são uma segunda casa, uma segunda chance para a vida, para me divertir, para ter amigos, uma esperança. O arquipélago dos Açores será sempre o lugar que me salvou.”

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About Author

Formada em Comunicação Social e Cultura, pela Universidade dos Açores, Patrícia Carreiro tem como paixão os livros. Já escreveu e publicou os seguintes livros: A Distância que nos Uniu, Amizade a branco e preto, O fio perdido e Os limites do coração.
Enquanto jornalista já passou pela RDP e RTP Açores, Açoriano Oriental, Expresso das Nove e JornalDiário.com. Foi representante da Chiado Editora e da Pastelaria Studios Editora nos Açores e coordena o projecto EscreVIVER (n) os Açores.
Atualmente, é diretora editorial e jornalista da 9idAzoresNews.

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