“As mil e uma noites”, segundo Miguel Gomes, ou Era uma vez Portugal agora…

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Estreada no rentrée de 2015, a trilogia “As Mil e Uma Noites” começou por ser um projeto completamente atípico. Miguel Gomes, realizador de “Tabu”, entre outras das mais delirantes obras do cinema português, decidiu fazer um novo filme contando a história ou as histórias do Portugal ‘entroikado’, através de acontecimentos e situações verídicas recolhidas durante um ano (agosto 2013 a julho 2014) por um grupo de jornalistas por esse país fora. Isto porque foi impossível ficar indiferente à situação dramática de Portugal, um país que infelizmente subsistiu à custa de um plano de ajuda financeira. Em seguida, combinou este material com o discurso ficcional e com a estrutura do conto oriental de ‘As Mil e Uma Noites’. E o resultado é um tríptico cinematográfico delirante e ao mesmo tempo emocionante, de mais de seis horas, dividido em 3 volumes, respetivamente: “O Inquieto”, “O Desolado”, “O Encantado”.

O tema do volume 1, “O Inquieto”, varia entre a realidade da crise económica e a ficção cómica, por isso o melhor foi combinar o realismo com o burlesco. Este volume fala sobretudo da fuga e crise de inspiração do cineasta, da ansiedade em relação ao projeto. Os protagonistas destas histórias são selecionados na vida real: trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, ameaçados de encerramento; especialistas preocupados com a proliferação de vespas asiáticas que contaminam as colmeias e o mel; os aldeões indecisos de Resende, nas margens do Douro, em dia de eleições autárquicas, onde se passa a história do galo que vai a tribunal e da incendiária ‘ressabiada’ por ter sido trocada pela bombeira; ou mesmo os dramáticos testemunhos finais dos desempregados de longa duração. O capítulo culmina no Banho dos Magnifícos (os trabalhadores dos Estaleiros de Aveiro) na praia no primeiro dia de 2014. Os temas não são apenas económicos ou políticos. Mesmo que ‘as pessoas tenham visto baixar os seus rendimentos nos últimos anos’ lembra Miguel Gomes, podem ter um ar brincalhão e mesmo sensual, como as ‘donzelas ilha’ ou ‘os homens de pau-feito’, com os homens da troika (Américo Silva e outros), o Primeiro Ministro (Rogério Samora), o sindicalista (Adriano Luz) e o tradutor brasileiro (Carlotto Cotta), num dos melhores momentos a fazer lembrar os sketches do Herman José no seu melhor. Vemos também uma baleia encalhada na praia, como um aceno para o crocodilo de “Tabu”.

O volume 2, “O Desolado”, mantém-se no modelo original, seguindo diferentes discursos, e a matéria prima é a mesma dos lugares do país onde os habitantes vivem marcados pela crise e pela desilusão. Abre com a Crónica da Fuga de Simão ‘Sem Tripas’ (com o estreante Chico Chapas que tem alma de actor) a fugir por montes e vales até ir no jipe da GNR a caminho do tribunal. Seguem-se As Lágrimas da Juíza (um saudado regresso da grande actriz Luisa Cruz ao cinema), num tribunal onde se julga tudo, desde o roubo das vacas, à corrupção, aos banqueiros, aos visa gold, aos chineses, numa sequência com momentos verdadeiramente inspirados e hilariantes; e depois Os Donos do Dixie, onde um cão é pretexto para falar do suicídio de um casal de Santo António de Cavaleiros (interpretado por Teresa Madruga e João Pedro Bénard), de um jovem casal de ‘agarrados’ à droga (Gonçalo Waddington e Joana de Verona), que vive da caridade e que funciona como uma reconstituição de uma história paralela de exclusão social e abandono, passada numa torre dos cosmopolitas subúrbios de Lisboa, onde se joga cricket.

O círculo fecha-se num volume 3, “O Encantado”, onde Miguel Gomes dá destaque à personagem de Xerazade (Crista Alfaiate) e às brilhantes histórias dos inenarráveis passarinheiros de Chelas (e novamente com Chico Chapas) e a famosa manifestação dos policias que quase culminou na invasão da Assembleia da República. O filme começa em Marselha no cenário da ‘Ilha das Virgens’ e do castelo do Grão Vizir (Américo Silva), onde vive Xerazade. É aqui que esta começa a sua narrativa e os seus desvaneios amorosos, primeiro com Pendelman, o Loiro Burro (Carlotto Cota), e depois com o rapper Elvis. Mas do outro lado do mundo (O Parque das Nações virado ao contrário), estão as inúmeras histórias do canto dos pássaros tentilhões, dos passarinheiros e a Floresta Quente, um capítulo marcado pela manifestação dos policias. O filme termina simbolicamente com a história do pássaro que canta até morrer e nesse momento Xerazade cala-se, para dar lugar a Chico Chapas, o rei dos passarinheiros a percorrer uma estrada ladeada de campos de espiga e papoilas vermelhas. Uma das muitas referências no filme ao Benfica.

“As Mil e Uma Noites” é um filme sobre nós e a crise, mas é sobretudo um filme poético e encantatório, que só faz sentido se for visto na totalidade.  

Miguel Gomes nasceu em Lisboa em 1972. Estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema e trabalhou como crítico de cinema na imprensa portuguesa entre 1996 e 2000. Realizou várias curtas metragens, premiadas em festivais como Oberhausen, Belfort ou Vila do Conde e exibidas em Locarno, Roterdão, Buenos Aires ou Viena. Realizou em 2004 a sua primeira longa metragem, “A Cara Que Mereces”. Em 2008, estreou o seu filme “Aquele Querido Mês de Agosto”, na Quinzena dos Realizadores em Cannes, posteriormente exibido em mais de sessenta festivais internacionais, onde recebe dezasseis prémios. Teve retrospectivas, nomeadamente na Viennale (Aústria) em 2008, no Bafici (Argentina) em 2009 ou no Cinema Arsenal em Berlim (Alemanha) em 2010. “Tabu” foi exibido na competição oficial da Berlinale 2012, onde recebeu o Prémio Aflred Bauer e o Prémio Fipresci.

José Vieira Mendes | Cine-Clube da Ilha Terceira

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O Cine-Clube da Ilha Terceira (CCIT) é uma associação de natureza cultural, sem fins lucrativos, fundada em 1977 por um grupo de cidadãos interessados em proporcionar o visionamento de obras cinematográficas na ilha Terceira. Após um período de vários anos marcados por uma pujante atividade, o CCIT conheceu progressivamente uma diminuição da sua dinâmica, o que conduziu ao encerramento das suas atividades. No ano de 2013, em resultado da iniciativa e do empenho de um conjunto de amantes do cinema, o CCIT foi reativado, dando-se início a um novo ciclo da sua existência. É ainda neste contexto de refundação do CCIT que a sua atividade no tempo presente fica marcada.

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