Memórias da rádio a ocidente

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Andava eu na rebeldia da adolescência quando a Rádio Flores emitia na frequência 104.5. Da janela do meu quarto o meu minúsculo aparelho não conseguia captar o sinal. Era um jogo de “apanhada” entre uma janela e outra da casa dos meus pais para tentar apanhar em condições o sinal retransmitido do lugar da Ponta Ruiva.
Na altura, o nosso querido Max (era assim tratado o responsável pela estação) passava músicas com dedicatórias, publicidade do comércio local e notícias locais de interesse para a população. Era feito um esforço da parte dele e da parte dos seus colaboradores que se dividiam entre os seus trabalhos e a carolice de fazer rádio nos tempos em que esta ainda era a companhia das famílias e um meio de difusão e comunicação nas pequenas localidades.
Anos mais tarde, com a saída do Max da ilha, a rádio calou-se. E ficou um silêncio tão grande e um vazio tão intenso que juntou um grupo de jovens, movidos pela irreverência, pela rebeldia, mas sobretudo por uma sede de cultura que os fez iniciar o projeto da “SOS pirata”. Sim era um verdadeiro SOS.
Eram as vozes locais que se queriam fazer ouvir, que se queriam difundir uma vez mais numa frequência emitida a muito esforço por aparelhos “reinventados” por cérebros pulsantes e enérgicos que durante algum tempo levaram às casas das nossas gentes o saber local e a cultura da nossa pequena tribo nesta pequena ilha perdida no Atlântico. Silenciados foram também por politiquices e pelas “legalidades” e formalidades que desgastam aqueles que a algum custo tentam fazer viver as pequenas ilhas.
Hoje ouvir rádio já não é o que era. As emissoras que chegam às nossas casas estão bastante “distantes” de nós, da nossa cultura, das nossas vivências e das nossas notícias.
Um dia os nossos filhos e netos sentirão falta do registo noticioso da história da nossa ilha. As leis e as exigências e os custos incutidos aos órgãos de comunicação social são a “morte” do papel fundamental que eles exerciam, são a “morte” do registo local que se fazia.
Caiu as Flores no silêncio. Aquele silêncio que a alguns conveio!

Maria José Sousa

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About Author

Maria José Cabral de Sousa, nascida a 08 de maio de 1979 no seio de uma família numerosa, natural de Santa Cruz das Flores, fez ensino primário na freguesia de Ponta Delgada, ilha das Flores onde residiu durante a sua infância e juventude. Concluiu o ensino secundário na Escola Básica e Secundária da ilha das Flores. Funcionária publica, mediadora de seguros e empresária no ramo da restauração, foi também subdiretora do Jornal As Flores entre o período de 2006 e 2007, assumindo depois o cargo de diretora do mesmo jornal entre o período de 2008 a 2012. É ainda esposa e mãe de duas meninas residente na Ilha das Flores.

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