A origem da fé

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Muito longa é a tradição do Divino Espírito Santo nos Açores. Existem diversos impérios, muito diferentes entre si, mas a devoção é sempre a mesma: a crença na força viva que é o Espírito Santo.
Para falar sobre o assunto, a 9idAzoresNews falou com Maria Genoveva da Ponte Viveiros Moreira, natural dos Arrifes, em Ponta Delgada, que viveu de perto estas tradições, pois a sua família sempre esteve envolvida nestas festividades.
Assim sendo, com a experiência que os seus mais de 70 anos permitem, a D. Genoveva explicou-nos e ensinou-nos o que é a força do Divino Espírito Santo e como foram mudando as tradições que acompanham esta festividade de longa data. Do Império dos Pobres ao Império dos Nobres, a professora reformada mostrou a sabedoria do povo numa fé que viveu lado a lado. Munida da informação necessária na mente e de alguns suplementos em papel, a D. Genoveva começou a contar como teve origem o Espírito Santo na sua vida. O avô paterno, José da Ponte Viveiros, sofria de cólicas abdominais insuportáveis. Perante tal situação, o desespero era já tanto que os seus avós foram a casa de uma vizinha pedir o auxílio da Bandeira do Espírito Santo. Esta é também conhecida como o véu ou manto do Espírito Santo. Depois de coberto com a bandeira, a verdade é que, quase instantaneamente, o avô ficou bom. Por isso, “ele prometeu que – enquanto vida tivesse – faria sempre a festa do Espírito Santo”. Esta acontecia no domingo da Festa, na freguesia dos Arrifes, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. Era o chamado Império dos Pobres ou o Império das Esmolas.
No início, José Viveiros contava com o apoio de algumas pessoas que auxiliavam com farinha e com vinho. A carne, proveniente dos gueixos, era do próprio José, o qual matava 11 animais por cada império para que a carne fosse distribuída pelos pobres. Naquele tempo, contou a D. Genoveva, “não se distribuía massa sovada, era só a carne, o pão e o vinho”. Mais tarde, o vinho também já era de José Viveiros que tinha uma quinta em São Vicente Ferreira, em Ponta Delgada.
José Viveiros só veio a falecer em 1950, pelo que a festa foi ganhando outra dimensão no decorrer de todos aqueles anos em que fez a função do império. Foram cerca de 20 anos.  “Em 1931, o meu avô distribuiu 200 pensões a povos de diversas localidades, tendo também distribuído um igual número a irmãos que pagaram a insignificante quantia de dez mil reis insulanos, o que era muita pouco, uma cascarrilha; seriam dois escudos ou dois escudos e meio”, relembra a D. Genoveva ao ler uma nota de um jornal açoriano da época.
Os animais eram mortos mesmo em casa num espaço que se criava no quintal do mordomo, pessoa responsável pelo império. A este espaço chamavam de arribana. Os gueixos eram dependurados e ficavam à espera da visita do veterinário para verificar as condições sanitárias dos animais, bem como do padre que vinha benzer a carne e todos os restantes bens destinados às pensões.
Recorda a arrifense que se deitavam “ramos de criptoméria no chão, os quais se salpicavam com vinho para ficarem perfumados”.
Também havia, como ainda há, animação e música. Os cantadores e tocadores de violas, guitarras, pandejos e realejos animavam as pessoas que por ali se encontravam a trabalhar para ofertar aos mais pobres um pouco de carne, pão e vinho. Mas a animação ia mais longe e tudo era motivo e forma de tocar e cantar, como por exemplo com colheres. Sim, havia quem sabia tocar colheres, as mesmas que servem para comer, e fazer uma melodia interessante e cativante para acompanhar os outros instrumentos. Era esta a música que acompanhava, por exemplo, a coroação para a igreja, a matança dos animais e outros momentos do mordomo que mais à frente conhecerão. Com uma certa nostalgia, a D. Genoveva conta-nos que estas coroações de instrumentos eram muito bonitas. Hoje em dia é diferente, pois as bandas filarmónicas ficam muitas vezes encarregues de cumprir esta função.
Da festa faziam parte também os carros de bois. Estes eram enfeitados com “as chavelhas de madeira na parte da frente e com goivos que o meu avô plantava. Tinham várias cores: brancos, cor de carne e roxos. Colavam-se os mesmos com cola de sapateiro que se fazia com farinha. Os quartos do Espírito Santo, onde se colocam os símbolos do Divino, eram também adornados com goivos e malmequeres; só quem tinha posses usava açucenas, pois estas mal existiam. Os quartos eram muito bonitos”, relembra a D. Genoveva.
A professora revela com saudades que era uma folia aquela festa, uma vez que se juntava a família toda e os vizinhos das redondezas, pois vinham receber a carne que era repartida sempre pelos mais pobres. Se sobrasse, os outros mais apossados também teriam o seu quinhão. Mas em tempos de guerra não se limpam armas e, naquela altura, tudo era aproveitado. A D. Genoveva explica porquê. “Dava-se o sangue dos vitelos às pessoas, porque este era uma forma de conduto. Cozia-se com salsa, alho e pimenta. Colocava-se em cima dos poiales, ou seja, em cima de mesões, o funcho e o sangue. Este último era, posteriormente, cortado às barras quando endurecia. E as pessoas comiam. Faziam fila para receberem a sua parte. Eram tempos difíceis. E vinham de vários locais buscar o sangue da coroação. Mas não pagavam; era tudo oferecido.”
As ofertas eram dadas até ao final da festa e quando restava pão, o mesmo ia cortado em fatias em lençóis para junto do teatro, onde se tiram as sortes do Espírito Santo, para dar às pessoas que por lá estivessem.
Mas a crença e a força do Espírito Santo iam além do que se comia e a D. Genoveva narrou-nos casos sem explicação onde a fé das pessoas no Divino era posta à prova. Certo dia, estavam a matar os animais quando viram que outro vinha a caminho para se juntar à festa. Ao que parece, o boi em causa vinha da freguesia das Sete Cidades, dos Lourais, e foi ter a casa de José Viveiros para acrescentar a carne a ofertar.  “«O Espírito Santo quer mais um», disse o meu avô. Mataram-no e deram a carne”, relata a professora.
Outra história contada pela D. Genoveva passou-se com o seu pai. Este era um devoto do Espírito Santo e oferecia muitas vezes gado para os impérios. Certa vez, prometeu um determinado gueixo, mas – chegando à altura de o ofertar – decidiu dar outro, por este ser mais gordo. Ora, conta a D. Genoveva que o seu pai, que era um grande matador, nunca conseguiu matar o segundo escolhido. “O animal ajoelhou-se à frente do meu pai, quase a pedir para não morrer, e ele viu que havia ali mistério. Então foram aos pastos buscar o que tinha sido mesmo prometido e ele morreu de imediato. Era uma folia ver o gueixo morrer e ficamos todos impressionados com aquela cena.”
A primeira vez que José Viveiros fez a coroação foi numa quinta-feira da Ascensão, tendo sido o tio da D. Genoveva que se encontrava na tropa a vir coroar. Foi necessário a avó pedir autorização para que ele pudesse vir coroar. Nos primeiros anos o império era festejado na quinta-feira da Ascensão, mas depois passou para a ser no domingo da Festa, no domingo de Pentecostes. “A ascensão de Jesus Cristo marca a atitude cristã em definitivo para com as atitudes terrenas e a festa da ascensão simboliza a subida de Jesus aos céus para junto do seu Pai”, explica a D. Genoveva.
Tudo era motivo de festa e de reunião entre as pessoas. “Na quinta-feira anterior à festa, um grupo de pessoas, acompanhadas da folia, recolhia os animais dos pastos. Estes eram ornamentados com verduras, novelões e com os respetivos chocalhos e percorriam a freguesia. E faziam-no para afugentar os maus espíritos. Dizem os antigos que o barulho que os chocalhos fazem têm o condão de os afastar. Na sexta-feira procedia-se, então, à matança dos gueixos e enquanto tal acontecia a folia tocava e as pessoas cantavam ao desafio. Comiam-se as Sopas do Divino Espírito Santo também neste dia, assim como alguns bifes. Já no sábado de manhã eram servidas as favas guisadas e à noite a caçoila. Sinto saudades daquele convívio, da algazarra da família toda reunida e do calor humano que transbordava dos rostos carcomidos e fortemente envelhecidos de forma precoce devido ao trabalho e às agruras da vida. Aquele império era uma alegria para todos. Era a minha avó quem atirava os foguetes, sempre com grande segurança, no canto da chaminé. O meu avô dava ordens para que nada faltasse, recordo isso com muita nitidez. Não havia lugar para queixumes nem tristezas”, recorda.
Ao sábado à tarde era o momento da distribuição das pensões. Os carros das pensões pertenciam a pessoas amigas e geralmente havia um para o pão, outro para a carne e outro para o vinho. Maria Genoveva diz que não se recorda de rezarem o terço, mas sim de umas cantilenas em forma de reza.  
“A coroação realizava-se na hora da missa, era um cortejo muito grande acompanhado de música. As pessoas levavam ramos de flores. Esta cerimónia era celebrada na Igreja Nossa Senhora da Saúde, que era a principal na altura. Outrora, quando a pessoa tinha a coroa para fazer a coroação e queria evitar fazer despesas de maior, pegavam nos filhos, na mulher e na Coroa e iam à igreja coroar. Deslocavam-se de táxi e evitavam-se falatórios. Ao regressar, a Coroa do Espírito Santo ia direita para o teatro, que vulgarmente se diz treatro, onde à tarde se tiravam as sortes. Havia sempre cantigas. A coroa e as bandeiras pertenciam à Irmandade. Estas eram colocadas num quarto com muito esmero onde abundavam flores como os malmequeres, os jarros, os tremoços de cheiro amarelo, e as rosas”, conta.
Explica, ainda, a professora que “em virtude de uma epidemia que aconteceu em São Miguel, realizou-se uma Festa do Divino Espírito Santo onde participavam as pessoas mais nobres da cidade. Por isso, ficou a chamar-se o Império dos Nobres. À missa cantada, que se celebrou no altar de São Roque, na Igreja Matriz, em Ponta Delgada, um milagre se apurou. Apareceu uma pomba que a todas as cerimónias assistiu e desapareceu logo que as festas terminaram. É por isso que o micaelense diz a segunda-feira da Festa da Pombinha”.
Com alegria por recordar uma grande parte da sua infância, a D. Genoveva falou, ainda, de coração aberto sobre diversas curiosidades sobre o Divino Espírito Santo, terminando – assim – uma conversa animada e recheada de saber.

Curiosidades sobre o Espírito Santo:
– As pensões são denominadas de flores do Divino Espírito Santo pelo perfume que deixam na casa de quem as recebe.
– Ao Divino Espírito Santo nada se nega.
– O que se promete ao Espírito Santo deve ser cumprido quase de imediato. O Divino não espera, o Senhor Santo Cristo dos Milagres espera mais pelas promessas.
– Há chocalhos gravados com a imagem de Nossa Senhora, porque os donos pediam a sua proteção para os animais.
– Nos Arrifes dá-se o nome de fogaça às argolas de massa pequeninas que são distribuídas às primeiras sete crianças que saem da igreja no dia de Pentecostes. Consiste numa promessa em louvor dos sete dons. Se a pessoa tinha mais posses, podia dar a mais do que sete crianças, as quais não podiam ter mais de sete anos, uma vez que depois desta idade já eram consideradas pecaminosas.
– Noutras freguesias, a fogaça é uma pomba pequena que se coloca junto à Coroa do Espírito Santo, significando o fogo do divino.
– Há crianças que, ao nascerem, trazem algumas anomalias. As mães, na sua aflição, fazem os filhos foreiros do Espírito Santo, ou seja, comprometem-se a oferecer todos os anos uma prenda ao Divino e dizem que o seu filho é foreiro do Senhor Divino Espírito Santo, significa que está à sua guarda.
– A primeira Coroa do Espírito Santo que foi para o Brasil era dos Arrifes.

Receita das Sopas do Divino Espírito Santo
Quando a água está a ferver, deita-se a carne. Quando cozida, junta-se a couve, a batata, uma pimenta inteira, sal e alguma banha quando a carne for fraca de gordura. Depois de tudo cozido, deita-se caldo por cima do pão cortado aos pedaços e, por fim, coloca-se um ramo de hortelã. Há quem goste de colocar no prato da sopa um pouco de vinho de cheiro.

Receita da Caçoila (conhecida, também, por sopa de bosso)
Cortam-se os corações aos pedaços, assim como os pulmões. Pica-se tudo aos pedacinhos, lava-se muito bem, deixa-se escorrer e espreme-se fortemente. Na panela de ferro coloca-se bastante banha, cebola picada em abundância, alho, pimenta, vinho e um pouco de colorau. Leva-se tudo a refogar com muito vagar. Em seguida, juntam-se as carnes, que devem ser feitas sem pressas para que a comida fique bastante saborosa e o molho bastante apurado. No final, junta-se as batatas até ficarem rosadas. Dispõe-se tudo em terrinas e travessas e está pronto a servir.

Fotos de Marcos Brito

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About Author

Formada em Comunicação Social e Cultura, pela Universidade dos Açores, Patrícia Carreiro tem como paixão os livros. Já escreveu e publicou os seguintes livros: A Distância que nos Uniu, Amizade a branco e preto, O fio perdido e Os limites do coração. Enquanto jornalista já passou pela RDP e RTP Açores, Açoriano Oriental, Expresso das Nove e JornalDiário.com. Foi representante da Chiado Editora e da Pastelaria Studios Editora nos Açores e coordena o projecto EscreVIVER (n) os Açores. Atualmente, é diretora editorial e jornalista da 9idAzoresNews.

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