Esturro

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Eh lá!, três da manhã e luz na cozinha?! Isto cheira-me a esturro. É uma expressão que eu gosto de usar, cheira-me a esturro. Diz bem comigo. Mau, risinhos tontos é que não. Às três da manhã aturam-se melhor bebedeiras do que risinhos de parvas com o cio. Mas tenho de concordar!, é do melhor que ele arranjou até hoje, de certeza a melhor de todas. Que estampa!
Ele está tão atarantado que até corta o pão torto. Depois eu é que torro mal! Bom, ele também nem vai apreciar o estado das torradas que eu lhe fizer saltar para as mãos, essa é que é essa.
Bolas, mais risinhos. Agora deixa-me o pão a meio caminho… Isto é que é falta de eficiência! Se não fosse desconfiarem, fazia as torradas em produção independente. Mas há que ter calma.
Pronto, lá deixou a rapariga e já se concentrou outra vez no pão. Isto parece-me mais sério do que o costume. Até se enganou no tempo. Com o botão no cinco, vai cheirar a esturro, vai, vai. A rapariga bem podia estar quieta. O rapaz assim atrapalha-se. O sumo já veio por fora do copo. Uma tristeza, uma coisa mesmo deprimente. O melhor é aplicar o esturro. Um bom cheirinho a esturro faz sempre aclarar o pensamento.
Não ligam?! Então vão ver. Que tal? Já é suficientemente insuportável? Então?! Não dão por nada. Credo! Se não era para comer torradas, para que é que se levantaram?! Deixassem em paz a malta da cozinha, que era bem melhor.
O cúmulo, isto é demais! Já nem vejo bem com o fumo que deito. E eles nada. Eu disparo, juro que disparo. Ah, não me acordam sem razão, não julguem que eu vou ficar a ver-vos nessas cenas e não faço nada.
Tenho de apontar bem. Puxar a mola ao máximo, preparar, e aí vai! Mesmo em cheio! Separados por uma torrada impiedosa! Agora cheira-lhes a esturro, claro, pois cheira. A torrada estatelou-se nas carinhas deliciadas. Estou a melhorar! Da última vez, deixei a torrada a dez centímetros do alvo. Hoje foi uma beleza. A rapariga está boquiaberta. Coitada, é a primeira vez que me vê projetar torradas a meio metro. Especialista, é o que eu sou. Não me provoquem que eu não faço ondas. Agora porem-se em cenas e eu a torrar pão dois pontos acima, isso é que não.
Estás a olhar para quem, ó minha linda? Não abras tanto os olhos, pá, eu já parei. O que é isto?! Uma chama?! Estou a arder! Não veem?! Ele sem fazer nada, ela… mais atenta. Estás maluca?! Isso não, não, água não! Eu estou ligada à corrente, estúpida! Para!!!

Ilustração de Luís Cardoso

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About Author

Margarida Fonseca Santos nasceu em Lisboa. Foi professora de Pedagogia e de Formação Musical em várias escolas. Começou a escrever em 1993 e tem já uma vasta obra publicada, a maioria na área infantojuvenil, e grande parte dos seus livros estão incluídos no Plano Nacional de Leitura. É responsável pelo blogue «Histórias em 77 palavras», uma plataforma de desafios de escrita para pessoas de todas as idades.

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