A Odisseia: Um Mar de Memórias

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A vida e obra do conhecido investigador e oceanógrafo francês Jacques Cousteau foi adaptada ao cinema em ‘A Odisseia’, do realizador Jérome Salle, num filme que estreia agora e que conta a história das suas relações familiares, das suas aventuras submarinas, e o início das suas batalhas ecológicas, pela proteção dos ecossistemas submarinos.
O CineClube da Ilha Terceira apresentou no Centro Cultural de Angra do Heroísmo, em antestreia nacional A Odisseia, um filme escrito e dirigido por Jérome Salle (Anthony Zimmer, o filme que deu o remake americano A Turista, com Angelina Jolie) sobre a vida de Jacques Cousteau (1910—1997). Ele foi o comandante do navio Calypso, e o famoso pioneiro das filmagens subaquáticas, que animou as sessões televisivas de várias gerações, sobretudo com a série de documentários Expedições de Jacques Cousteau, na RTP, da década de 70. Agora A Odisseia, — numa estreia que coincidiu com a comemoração do Dia Mundial dos Oceanos (8 de junho) —, trata-se de um filme biográfico convencional, que incide principalmente na relação do oceanógrafo com o seu filho Philippe. No entanto, é igualmente uma pedagógica revisitação da história do século XX e da vida de uma grande figura desse tempo — as gerações mais novas desconhecem-no — e que marcou a evolução da relação entre o homem e a natureza e as primeiras reacções públicas em favor da protecção do ambiente e dos ecossistemas submarinos.
A Odisseia é baseado numa adaptação livre de dois livros dedicados à vida e obra do oceanógrafo: My Father, the Captain: My Life With Jacques Cousteau, escrito pelo filho Jean-Michel Cousteau, e The Memoirs of Falco, Chief Diver of the Calypso, de Albert Falco — o mergulhador-chefe da equipa de Cousteau — , além de se ter inspirado em comentários e testemunhos de pessoas que conviveram com investigador marinho. A Odisseia é, literalmente isso mesmo, uma extraordinária viagem biográfica que procurar recriar o maior número possível de episódios da vida do marinheiro francês, autor igualmente do livro, que inspirou o documentário Mundo do Silêncio, de Louis Malle, — o primeiro a usar imagens subaquáticas — Palma de Ouro do Festival de Cannes 1956 e Óscar de Melhor Documentário no ano seguinte. O filme é protagonizado por Lambert Wilson (Deuses e Homens), Audrey Tatou (O Fabuloso Destino de Amélie) no papel da primeira mulher de Cousteau e a estrela emergente Pierre Niney (Yves Saint Laurent) em Phillipe. A Odisseia procura revelar a figura de Cousteau, mas, ao mesmo tempo, também desmistificá-la. O filme relata justamente a evolução dessa personalidade controversa e polémica, de conquistador a salvador, já que nos últimos anos da sua vida se tornou num grande defensor do meio ambiente e não apenas num explorador dos mares, e essa conversão deve-se em grande parte às ideias do seu filho Philippe. Embora o Comandante Cousteau tenha explorado várias vezes as águas territoriais portuguesas, nomeadamente nas ilhas dos Açores — além do mar, conta-se que mergulhou, também na Lagoa das Sete Cidades — o filme começa exatamente num momento de tragédia ligada a Portugal: Philippe Cousteau, o filho do comandante morreu em 1979, num acidente com o hidroavião Calypso II, em pleno Rio Tejo — na zona entre Alhandra e Vila Franca de Xira — num voo de teste quando a aeronave saia de uma reparação das oficinas da OGMA. Daí para a frente, A Odisseia desenvolve-se num extenso flashback sobre a vida aventurosa do comandante Jacques Cousteau, entre os 37 e 70 anos de idade, que levou o realizador Jérôme Salle a montar a sua própria expedição para rodar este filme, da Croácia à África do Sul, da Antártida às Bahamas.
Jacques Cousteau era, de facto, uma espécie de Capitão Nemo, a personagem principal de As Vinte Mil Léguas Submarinas, de Julio Verne, figuras que tanto admirava na sua juventude: tinha um lado bom e lado mau. E em A Odisseia ficamos a conhecer primeiro, o inventor curioso, com uma imaginação inesgotável, que ajudou a criar o escafandro aqua long, para explorar o fundo do mar; e por outro o homem perseverante, que apesar de apaixonado pelo mar, foi capaz de conseguir coisas impossíveis, mesmo quando teve de escolher nem sempre os meios mais éticos — foi financiado pelas empresas petrolíferas — para atingir os seus fins. Mas de facto Cousteau era um homem à frente do seu tempo pois explorou o mar como outros nunca o haviam feito até então. E sem correr muitos riscos formais o realizador Jérôme Salles traça com a ajuda de um elenco muito competente, um minucioso retrato desta figura: a construção do sonho de Cousteau (Lambert Wilson) de explorar os mares, ao lado da sua esposa Simone (Audrey Tautou) e dos seus filhos Jean-Michel (Benjamin Lavernhe) e Philippe (Pierre Niney), até ao seu admirável empenho para o conseguir concretizar e por último o inevitável desgaste das relações com aqueles que lhe foram mais próximos. Se a vida de Cousteau já de si é uma garantia de grandes emoções, drama e aventura, neste sentido, Salle optou por nos mostrar o lado humano explicando o que está para além dos prémios, reconhecimentos e milhões de dólares, que de Cousteau, ganhou com as suas produções televisivas. Jérôme Salle joga com o lado mais obscuro do seu personagem mostrando que a condição humana é um processo complexo, frágil, exposto a erros, mas também aberto à redenção. O eixo central do filme é a vida de Cousteau, mas o arco narrativo apoia-se na sua relação preferencial com Philippe para criar mais tensão dramática: de pai e marido amoroso, Cousteau torna-se num empresário carismático, egoísta, vaidoso e cruel. E este percurso de vida é o pretexto para a recriação de extraordinários momentos de imagens submarinas sem efeitos especiais, poucos é verdade, mas belos e arriscados, como uma cena com tubarões, que faz lembrar de facto as mais de uma centena de produções televisivas do mestre Cousteau. Por isso, A Odisseia, sem ser uma obra-prima é um bom filme e principalmente é uma saudosa viagem visual pelo chamado Continente Azul, com uma rara profusão de imagens aquáticas: baleias, tubarões, corais e até uma perigosa tempestade no mar da Antártida. É uma obra, e tem muito mérito por isso que apela à consciência ecológica e à proteção dos oceanos. A Odisseia de Jérôme Salle termina inclusive recordando, as ideias de Cousteau e uma das suas últimas vitórias: a assinatura de um protocolo de proteção do Antártico em 1991, que felizmente ainda está em vigor.

Trailer de A Odisseia:

José Vieira Mendes | CCIT

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