“Toda a vida gostei de coisas que tenham história”

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Assume-se como uma apaixonada por casas e foi com esta paixão que transformou três edifícios antigos de Ponta Delgada em estabelecimentos que saltam à vista de quem passa.
Catarina Ferreira tem 40 anos, nasceu na Benedita, em Alcobaça, mas veio para os Açores há 16 anos para iniciar a sua carreira docente. A expetativa não era ficar. Porém, apaixonou-se pela ilha e por “várias casas”.
Hoje, para além de professora, é também empresária. O restaurante vegetariano “Rotas”, o “Louvre Michaelense” e o “Andar de Cima” vieram enriquecer o centro da cidade e já fazem parte do roteiro turístico de São Miguel.
A 9idAzoresNews esteve à conversa com a Catarina. Em entrevista, falou-nos de si, da história de cada negócio que abriu e do amor que tem pelas coisas que cria. No entanto, esclarece que nada fez sozinha e confessa isso mesmo no final da nossa conversa: “eu sem eles, o que sou? Nada! Só por isso vale a pena estar nessa vida.”   Quando veio para os Açores que expetativas tinha?
De nada. Vim com a ideia de ver o que era a ilha, sem qualquer tipo de objetivo. No fundo, só vinha trabalhar, ficar cá um ano e acabou. Não havia aquela ideia de ficar cá para sempre. Depois, fui percebendo cada vez mais a ilha, a ficar a par dela e a pensar o que eu penso todos os dias: um dia hoje, amanhã logo se vê. Para sempre é que nunca!

Quando e como surge a sua veia empreendedora?
Não sei se sou a verdadeira empreendedora. Sou a verdadeira apaixonada, porque me vou apaixonando pelas coisas e vou-me apercebendo que elas podem ou não funcionar.
Mas acho que isso tem, também, a ver com a minha vida. Sou a filha mais nova, com mais duas irmãs; vivemos uma série de coisas familiares que me fizeram também ser muito independente. A minha mãe diz que desde pequenina compro as minhas fraldas! Sempre me desenrasquei muito. A minha avó Catita era a pessoa com quem sou mais parecida. Era uma senhora fantástica, criou sete filhos sozinha e fazia coisas inacreditáveis para os manter a todos.

Quando surge o seu primeiro negócio aqui?
Surge com o “Rotas”, há 12 anos. Eu gostava de ter uma loja, tinha sempre aquele desejo de fazer artesanato. O “Rotas” já existia há muitos anos, fazia umas tostas e sopas. Tinha uma paixão por aquela casa. Quando entrei ali, criei uma empatia enorme e achei que estava um bocadinho desaproveitada. Fiz uma proposta, na altura ao João Pacheco de Melo, para fazer numa das salas a nossa mini loja de artesanato contemporâneo. Ele achou a ideia giríssima. Depois, comecei a fazer experiências com a cozinha vegetariana e comecei a perceber o mercado e se o restaurante vegetariano poderia ser uma boa alternativa para a ilha. Vi que estava a resultar. Mais tarde, por ironia do destino, resolvi comprar uma casa e o, então, proprietário do “Rotas” ofereceu-me a venda do edifício. Eu não hesitei. Os primeiros anos foram um caos. Ter um restaurante não é propriamente a coisa mais fácil e abrir um vegetariano, há dez anos nos Açores, é uma coisa muito louca. Hoje em dia, o “Rotas” funciona muito bem. Este é o meu menino, o meu primeiro filho, e há assim um amor enorme.

A Catarina distingue-se muito pelas coisas que cria ou talvez pelo estilo que lhes dá?
No estilo eu não tenho um propósito. Toda a vida gostei de coisas que tenham história. Gosto de contar histórias e gosto que as coisas tenham o cheiro de uma casa. O estilo até pode ser um bocadinho próprio, mas tem sempre a ver com a forma como eu me sinto nos sítios. A minha máxima é receber como gostamos de ser recebidos.

E quando surge a relação com o famoso “Louvre Michaelense”?
Também era um sítio que de me dava uma dor de alma. Dizia sempre: ‘esse sítio ainda vai ser meu’. Ainda apanhei o edifício aberto; era a Primavera. Como sou uma apaixonada por mosaico hidráulico e por madeira, entrava naquela loja e viajava imenso. Mas depois fechou e não fazia a ideia de quem era. Entretanto, vi na internet que a casa estava para alugar. Na altura, quando vi o anúncio estava nas Sete Cidades, decidi mandar um email a perguntar o preço e fiquei sem bateria. Pensei: pronto isto é um sinal de que é melhor estar quieta. Mais tarde, fui a uma entrevista na rádio, por causa do negócio que tinha das Bolas de Berlim nas praias, e disse que tinha avisado aos meus amigos e à minha família que se eu abrisse mais um negócio que me internassem. Os donos do Louvre ouviram esta entrevista e perguntaram-me se eu queria ser internada, porque sabiam que eu não ia dizer que não. Tinham diversas propostas na mesa e, de uma forma simpática, aceitaram a minha pequenina oferta. Tenho a certeza de que foi a mais pequena, mas que também perceberam o que viria ser o “Louvre”.

Na altura, já tinha uma ideia pensada do que iria fazer no edifício?
Mais ou menos. Funciono por necessidades e tinha uma imensa carência de ter um sítio com objetos bonitos; um sítio bonito onde as pessoas pudessem fazer uma viagem não sei para onde. Era isso que eu sentia quando entrava no “Louvre”. O espaço estava decrépito, muito maltratado e claro que teria de fazer obras de saneamento e pensar no espaço, no que é que eu iria fazer nele. O Louvre tem um ano e meio e ainda hoje tentamos perceber e melhorar o espaço. No fundo, todos os dias estamos numa pesquisa constante e o projeto é muito desafiante e cansativo, porque criativamente é muito grande. Temos duas marcas associadas: o “Louvre Micaelense” e “Avó Catita”, inspirada na minha avó.

Que conceito é esse do Louvre?
O conceito do Louvre é vendermos as coisas de que mais gostamos. Tem o conceito de mercearia, porque é um sítio onde se vende de tudo. A minha avó Catita tinha uma mercearia; eu nasci e cresci numa mercearia que vende de tudo, desde o sabão à cueca e ao copo de vinho. Para mim, é um sítio onde se vendem várias coisas e o Louvre vende um pouco de tudo, das coisas que mais gostamos. As pessoas que lá trabalham apresentam-me várias propostas novas. É um trabalho de equipa!

Como decorreu este processo de reconstrução ao querer aproveitar tudo?
Foi uma loucura, porque é muito mais caro. Seria mais barato e muito mais fácil fazer tudo de novo. Mas não consigo entrar nesta linha de fazer as coisas iguais. Tenho uma preocupação e respeito extremos por aquilo que o espaço tem. Poderia ter feito a obra por muito menos, mas resolvi manter as madeiras todas e as letras, que estavam muito maltratadas. A minha ideia era transformar as coisas como eram. Não fazia sentido fazer de outra maneira, porque no final é o continuar de uma história. O Louvre tem tido visitas não só a nível nacional, como internacional.

O “Andar de Cima” surge como? É um complemento ao Louvre?
Sim. Eu apercebi-me que o edifício também tinha este espaço fantástico. Esta parte era a casa do dono, o Duarte Cardoso, onde os atuais donos do edifício nasceram e cresceram. No fundo é uma continuação. Chama-se o “Andar de Cima”, porque é no andar de cima do Louvre. Por outro lado, isto também foi uma necessidade que tivemos quando começamos a perceber que estávamos a ficar sem espaço lá em baixo.
Aqui fazemos algumas refeições, como os pequenos almoços. Também começamos a perceber que há muita necessidade de as pessoas terem um espaço para uma reunião, ler um livro ou estarem sozinhas a pensar num sítio com luz. Há pessoas que vêm cá, trazem o seu computador, estão na internet ou podem, simplesmente, tomar um chá. Este é também um sítio onde gostávamos de fazer alguns workshops, tertúlias e temos feito várias parcerias, onde as pessoas nos solicitam o espaço para várias iniciativas.  

A Catarina tem a noção de que o seu nome também poderá ficar para a história ao reerguer outras histórias?
Não há aqui esta intenção. No fundo, é fazer as coisas e perceber que têm alguma expressão na vida das pessoas. Tenho alguma sorte por ter comigo uma equipa que é fantástica, uns companheiros de viagem desta loucura, sobretudo este conjunto de pessoas que está a trabalhar e a fazer esta descoberta comigo. Basicamente, acho que é isso que me interessa!

Para terminarmos, tem algum projeto futuro?
Sim, o “Primos Ferreiras”, que é um projeto que já vinha de uma parte do Rotas e que eu senti que não estava à altura das minhas expetativas na ocasião.
O “Primos” surge de uma sociedade que eu tive com o chefe Hugo Ferreira; como somos os dois Ferreira, colocámos o nome ‘Primos Ferreira’. É uma empresa de catering, em que trabalhamos com produtos locais, como com a horta do Tio Carlos, e está a ser uma experiência muito engraçada. Abrimos em dezembro, ainda é recente, mas estou deliciada e penso que será uma grande aposta.
Eu sou uma pessoa muito recetiva. Se me sinto bem a fazer algo, não digo que não. No entanto, também, quando acho que não é o momento de eu estar presente, saio e pronto.
Percebo que está tudo bem quando eu não sou precisa! E percebi que esta é a fórmula de eu ser feliz. Isto só é possível porque tenho cada pessoa no seu lugar e porque confio. Ao confiar, estamos a dizer: isto também é teu. Eu não tenho nada. Nunca digo: eu tenho isto, porque isto é nosso. Eu sem eles, o que sou? Nada! Só por isso vale a pena estar nessa vida!

Fotos de António Carvalho e Cunha
Facebook do Louvre Michaelense:
https://www.facebook.com/louvremichaelense/

Facebook do Andar de Cima:
https://www.facebook.com/noandardecima/

Facebook do Rotas:
https://www.facebook.com/Rotas.vegetariano/

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