“Ler bons livros e escrever bem pode melhorar a qualidade de vida”

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +
Precisa de umas dicas para preparar uma carta de apresentação ou para transmitir as suas ideias da melhor forma? Há erros que continua a fazer e que ainda lhe causam confusão? Então deve ler o livro Como escrever tudo em português correto, da autoria de Sara de Almeida Leite, com a chancela da Manuscrito. A autora falou à 9idAzoresNews sobre o seu novo livro e explicou-nos a importância do mesmo. Venha descobrir como a Língua Portuguesa bem escrita e falada pode ajudar a sermos mais felizes.

Este livro apresenta dicas de como escrever tudo em português correto. Fale-nos um pouco dele.
Trata-se de uma espécie de manual sobre a escrita, que oferece linhas de orientação sobre os diferentes aspetos que a redação de textos envolve: desde decidir que objetivo se pretende atingir com o texto até rever e aperfeiçoar o que se escreveu, passando pela escolha do vocabulário e do estilo, pela eliminação de erros frequentes, pelo uso adequado da pontuação e pela aplicação das regras específicas a que cada tipo de texto deve obedecer. Contém, portanto, um conjunto de sugestões, princípios, exemplos e propostas de exercício que, aplicados no seu conjunto, permitem escrever melhor.

São 20 os tipos de texto abordados neste livro. Em qual deles erram mais os portugueses?
A resposta a essa pergunta depende, talvez, de que portugueses estamos a falar e quais os tipos de textos que escrevem, mas também do tipo de erro que temos em mente. Se estivermos a pensar em erros gramaticais, como os de ortografia, esses são notórios independentemente do tipo de texto. Se por erro entendermos o incumprimento das regras que ditam a forma como cada tipo de texto deve ser construído e apresentado, então a resposta depende do contexto: por exemplo, se estamos a falar de estudantes, tudo depende do ano de escolaridade e dos tipos de texto que, nesse ano, os alunos aprendem a escrever. Nesse caso, só cada professor poderá analisar o grau de (in)correção dos textos produzidos pelos seus alunos e dizer em que tipologia houve mais falhas.

Fazia falta um manual deste tipo?
Julgo que sim! Só conheço, em português, um livro do mesmo género, o Curso de Redação, em dois volumes, do professor José Esteves Rei, que aprecio muito e que, de certo modo, me inspirou. No entanto, sendo um livro com quase 20 anos, já está um pouco datado, pelo que penso que fazia falta uma publicação mais atual e ajustada aos nossos dias. Por outro lado, e sem desprimor da obra (pelo contrário!), trata-se de um livro bastante denso, escrito num estilo erudito, que poderá talvez ser difícil para alguns leitores. Nesse sentido, também procurei que o meu livro tivesse uma linguagem simples, fácil de entender.

Os portugueses erram muito? Porquê?
Há portugueses que erram muito, portugueses que erram pouco e portugueses que quase nunca erram. Estes últimos, claro, devem ser lidos e ouvidos com atenção e tomados como referência. O problema é que isso nem sempre acontece. Há portugueses que erram muito, no meu entender, por não se preocuparem com a autocorreção. Para ilustrar esta ideia, gosto de evocar uma personagem da série televisiva de animação Café Central (que era transmitida na RTP2 em 2011): o taxista Águas, que de vez em quando cometia erros gramaticais e, quando era corrigido por outra personagem, respondia, despreocupado: «Percebeste, não percebeste? Então ‘tá certo!». Penso que esta atitude ilustra bem a maneira como as pessoas que erram sistematicamente encaram os próprios erros: com a displicência de quem não vê interesse nem necessidade em aperfeiçoar a sua capacidade de expressão.

Acha que há um crescente desinteresse pela leitura e pela escrita? O que fazer para mudar a mentalidade dos portugueses neste sentido?
Não diria propriamente que há desinteresse, dado que, por influência das novas tecnologias, muitas pessoas passam o dia a ler e a escrever. Diria que, antes de mais, existe falta de critério na seleção do que se lê. Para mudar isso, seria necessário promover “agressivamente” (em termos de publicidade, de marketing), como se faz com os telemóveis, textos de grande qualidade linguística e literária, para que o público em geral as descobrisse e ganhasse o gosto pela sua leitura. As pessoas que leem muito, que leem bons livros e que conseguem falar com entusiasmo do que leram, de modo a contagiar quem as escuta, deveriam ter mais “tempo de antena”, nos meios de comunicação social, de maneira a influenciar o público em geral. Ler livros dá trabalho, leva tempo, mas é uma atividade extremamente gratificante, assim como escrever. Por isso, é necessário aliciar as pessoas, mostrar-lhes que ler bons livros e escrever bem pode melhorar a sua qualidade de vida, com exemplos concretos e atividades entusiasmantes, como os clubes de leitura e os cursos de escrita, que deviam existir em maior número e ser divulgados de forma eficaz, mesmo a nível institucional.

No entanto, hoje em dia escreve-se e publica-se por tudo e nada. Qual é a sua opinião quanto a este fenómeno?  
É um fenómeno natural na sociedade de consumo em que vivemos. Os livros ainda vendem, o que é excelente, porque as pessoas continuam a ter curiosidade de saber, de aprender, e também de “ouvir” histórias. Quase todos os livros têm histórias, ou estórias, o que os torna objeto de interesse. É claro que há livros que valem mais a pena do que outros, o que tem que ver com o calibre do autor, mas também com o cuidado que a editora teve na revisão do texto. Mais uma vez, é preciso saber escolher. Mas penso que as pessoas devem ter liberdade para lerem o que entenderem, mesmo que optem por leituras de menor qualidade. É melhor ler qualquer coisa do que nada!

O que a fascina mais na Língua Portuguesa?
É difícil determinar uma característica que me fascine mais do que outras. Pelo facto de ser uma língua viva, em constante evolução, e tão rica do ponto de vista etimológico, morfológico, lexical, etc., considero a Língua Portuguesa fascinante em muitos aspetos. Para dar um exemplo concreto, talvez me possa referir à sua plasticidade, ao modo como permite a criação de novas palavras de tantas maneiras diferentes, de tal forma que até as crianças pequenas conseguem criar termos novos, perfeitamente compreensíveis, utilizando inconscientemente os instrumentos que a língua põe à disposição dos falantes para esse efeito. Fico maravilhada quando ouço uma criança de quatro ou cinco anos “inventar” uma palavra totalmente lógica, como “subideira” em vez de rampa, “desaquecer” em vez de aquecer, ou “azeitoneira” em vez de oliveira. Isso é quase um milagre que a Língua Portuguesa nos permite apreciar com regularidade, se estivermos atentos!

Share.

About Author

Formada em Comunicação Social e Cultura, pela Universidade dos Açores, Patrícia Carreiro tem como paixão os livros. Já escreveu e publicou os seguintes livros: A Distância que nos Uniu, Amizade a branco e preto, O fio perdido e Os limites do coração. Enquanto jornalista já passou pela RDP e RTP Açores, Açoriano Oriental, Expresso das Nove e JornalDiário.com. Foi representante da Chiado Editora e da Pastelaria Studios Editora nos Açores e coordena o projecto EscreVIVER (n) os Açores. Atualmente, é diretora editorial e jornalista da 9idAzoresNews.

Comments are closed.