Presa à realidade

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Sentia-se presa à realidade escolhida, ou teria apenas sido confrontada com uma realidade não rejeitada? O verbo aceitar sempre lhe fora estranho, sem conseguir encaixá-lo nos pensamentos. Mas ali estava. Presa à realidade, a sua, naquele instante e em todos os instantes recordados, preenchendo mais de metade da sua vida.
Ouviu-o, mais uma vez. Não teria dificuldade em considerar aqueles sons como verdadeiros, falsos ou indiferentes. Tanto fazia. Aprendera a considerá-los assim, uns ou outros, como formas para sobreviver.
O seu problema era o tempo. Passara sem remédio. Sentia-se já sem tempo para recuperar o tempo perdido. Era esse o instante presente. Caíra da rotina para a consciência: não lhe apetecia mais uma existência de rotinas.
Bateu com a porta e foi-se afastando. Ele não chamou por ela. Não o ouvia. Mesmo se ouvisse, não seria, para ela, uma opção não se afastar. Teve a certeza de não o ouvir. Isso intrigou-a. Talvez apenas por instantes.
Desta forma desprendida, viu-se num outro percurso. Conheceu outras palavras e outras atitudes. Viveu-as para depressa se descobrir pronta para partir. Por cada paragem, uma nova rotina. Precisava de se afastar. Deixou-se surpreender por lágrimas, mas o chamamento de avançar era mais forte.
Acabou num beco. Um beco sem saída. Rodopiava sobre si mesma, sem conseguir seguir em frente. Foi acamando e acalmando revoltas e rotinas. Comparou e aceitou a certeza de que o antes fora melhor. Isso deixou-a confusa. Tão confusa, que a recolheram.
Quando a despejaram à porta de casa, vinha envolta num farrapo. Nesse farrapo resumia-se a falta de jeito para sobreviver sozinha. Isso, entendeu. Ali estava, de novo no ponto de partida.
Viu-o aparecer na entrada. Resignado, talvez terno. Ou apenas tranquilo. Não saberia escolher. Sabia que voltava fragilizada. Sabiam. Ninguém o disse.
O jardim era seu, a casa dele, a vida dos dois. Desta vez, entrou pela raiz da relação e reinventou-a. Ouviu-o e conseguiu entender as verdades, as falsidades protetoras e as indiferenças. Também ouviu os avisos contra caminhos sinuosos.
O tempo recomeçou, recuperando-se e reiniciando tudo, num novo fôlego. A rotina abraçou-a com a suavidade das coisas certas. E a consciência da sua existência reinventou-se, confortando-a.

Ilustração por: Ana Félix

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About Author

Margarida Fonseca Santos nasceu em Lisboa. Foi professora de Pedagogia e de Formação Musical em várias escolas. Começou a escrever em 1993 e tem já uma vasta obra publicada, a maioria na área infantojuvenil, e grande parte dos seus livros estão incluídos no Plano Nacional de Leitura. É responsável pelo blogue «Histórias em 77 palavras», uma plataforma de desafios de escrita para pessoas de todas as idades.

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