“Está na moda dizer-se que a felicidade é uma escolha”

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Tsering Paldron é uma mulher feliz que escreve para ajudar os outros a sê-lo também. Sabendo que Portugal “está entre os países da Europa onde as pessoas se consideram menos felizes” acha, naturalmente, que isso deve mudar. Considerando-se uma mulher que “não tinha muita queda para ser feliz”, Tsering contou à 9idAzoresNews o objetivo d’O Hábito da Felicidade e revela que, afinal, é preciso lutar mesmo para lá chegar!

O seu novo livro aborda o tema que todos procuram: a felicidade. Fale-nos dela.
Este é um livro que resulta da minha experiência de mais de 40 anos a praticar os ensinamentos budistas e de 20 anos a ensiná-los. N’O Hábito da Felicidade procurei explicar, numa linguagem simples e acessível, quais os fatores externos e internos que precisamos de reunir e implementar para construirmos a nossa felicidade. Está na moda dizer-se que a felicidade é uma escolha, mas é fácil constatar que não basta carregar num botão para sermos felizes para sempre. Trata-se de uma escolha que temos de fazer repetidamente e à qual temos de nos habituar, abandonando, pelo caminho, aqueles hábitos mentais mais nefastos com os quais, por vezes, convivemos há anos.
É por isso que, neste livro, eu começo por falar da higiene de vida que facilita o processo. Já que o corpo e a mente se sustentam mutuamente, temos de começar por reunir condições de vida mais saudáveis e harmoniosas. Depois, com a ajuda da meditação, podemos reconhecer os padrões de comportamento infelizes e substituí-los por outros, mais positivos. O Budismo tem inúmeras ferramentas que nos permitem desenvolver os pensamentos e as emoções positivas que substituem naturalmente os negativos. Nos vários capítulos do livro eu exploro essas técnicas graças às quais vivemos melhor no quotidiano e enfrentamos os desafios, e até a dor, com serenidade, sendo mesmo capazes de os transformarmos.

A felicidade é uma construção diária. Na sua opinião, o que fazem as pessoas para afastar a felicidade de si próprias?
Muitas coisas, infelizmente… e uma das mais importantes é focalizarem-se sobretudo nas coisas más. Rick Hanson, um autor americano, diz que o nosso cérebro tem uma tendência para ser como velcro em relação aos pensamentos negativos e como antiaderente em relação aos positivos. E, efetivamente, temos tendência para “remoer” apenas os pensamentos negativos e concentrarmo-nos nas coisas que não temos, esquecendo-nos sempre de todas as coisas positivas de que usufruímos.

A Tsering tem trilhado um longo caminho na meditação e do budismo. Como o descobriu e por que o segue?
O meu percurso no Budismo começou em 1973, na Bélgica, para onde tinha viajado. A minha crise existencial da adolescência tinha-me confrontado com a necessidade de encontrar um sentido que transcendesse a mera sobrevivência e, os ensinamentos budistas deram-me uma perspetiva nova e aberta que me entusiasmou.
Ao longo destes 44 anos nunca me arrependi. Encontrei no Budismo muito mais do que aquilo que inicialmente pensei. É, ao mesmo tempo, uma filosofia, uma ética, um estilo de vida e um método de transformação, graças ao qual nós nos transformamos e o mundo ganha sentido.

Diz que muito nova percebeu “que não tinha queda para ser feliz”. Sente-se feliz, no presente?
Sim. Sendo que talvez seja necessário definir o que entendo por felicidade. Acho que alcancei uma certa serenidade que me permite usufruir de cada momento sem o comparar com momentos passados, nem antecipar momentos futuros. Tenho a confiança de que, venha o que vier, hei-de saber lidar com isso – o que não significa que já não temo o sofrimento ou não aspiro à felicidade, mas que não sofro por antecipação nem projeto demasiadas expetativas.
Vivo com alguma tranquilidade as situações do quotidiano e procuro gerir com inteligência as situações mais desafiantes. A coragem de reconhecer a realidade do sofrimento – que o Budismo me ensinou – permite-me chegar mais depressa à aceitação daquilo que não posso mudar. Gosto de estar na minha companhia e acho que consigo criar, com os outros, laços carinhosos e profundos que se baseiam mais na conectividade natural de coração a coração do que em emoções desgastantes

Buda é uma referência para si. Acha que a sociedade, no geral, se recorda diariamente do budismo e da importância que pode ter na sua vida?
Acho que não, embora haja cada vez mais pessoas interessadas nos ensinamentos budistas. Provavelmente, há muitas pessoas para quem a denominação “budista” é um entrave. Porém, sendo o budismo uma tradição espiritual não-teísta, não colide com nenhuma visão do mundo e as suas técnicas podem ser aplicadas por qualquer pessoa.

Nasceu em Lisboa, na época da ditadura. Portugal precisava mais de ser feliz nesta altura ou agora?
Nessa altura e agora. Portugal está entre os países da Europa onde as pessoas se consideram menos felizes. Não há verdadeiramente razões objetivas para tal ou não haveria tantos estrangeiros a quererem viver em Portugal. Acho que talvez tenhamos tendência para remoermos o passado e termos uma avaliação demasiado negativa da nossa vida. Talvez devêssemos pensar mais em todas as coisas maravilhosas que possuímos, tanto a nível pessoal como a nível nacional.

Quem é a Tsering Paldron?
A Tsering Paldron é uma pessoa como qualquer outra, com as suas memórias boas e más, com um percurso de vida que, embora sendo pouco comum, não deixa de ter momentos melhores e piores, sofrimentos e alegrias. É verdade que tive inúmeras oportunidades de conhecer e privar com pessoas excecionais, os grandes mestres tibetanos, receber os seus ensinamentos e observar como reagem às diferentes circunstâncias da vida. Ao longo dos últimos 44 anos, o Budismo foi o núcleo e a direção da minha existência de forma que, agora, se puder partilhar o que ele me ensinou e inspirar outras pessoas a construírem a sua felicidade e a dos outros, sentir-me-ei ainda mais abençoada. É isso que gostaria de alcançar com este livro.

Página da autora: http://tseringpaldron.com/

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About Author

Formada em Comunicação Social e Cultura, pela Universidade dos Açores, Patrícia Carreiro tem como paixão os livros. Já escreveu e publicou os seguintes livros: A Distância que nos Uniu, Amizade a branco e preto, O fio perdido e Os limites do coração. Enquanto jornalista já passou pela RDP e RTP Açores, Açoriano Oriental, Expresso das Nove e JornalDiário.com. Foi representante da Chiado Editora e da Pastelaria Studios Editora nos Açores e coordena o projecto EscreVIVER (n) os Açores. Atualmente, é diretora editorial e jornalista da 9idAzoresNews.

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